Explicando: O Vira, de Secos e Molhados


Mais um mês e mais um Explicando por aqui.

Após trazer dois textos sobre séries nessas matérias especiais, optei por variar um pouco e, dessa vez, falaremos sobre música. E nessa de escolher alguma letra de música que valesse uma explicação detalhada, surgiram muitas possibilidades e opções diferentes.

O que ajudou na decisão de escolher O Vira, da banda Secos & Molhados foi estarmos no Mês do Folclore aqui na Revista Jovem Geek. A ideia surgiu logo no começo do mês, enquanto trabalhava no texto de Música e Dança e, apesar de não ser uma canção tão difícil de entender, ela possui muitos significados.

O Vira é uma música lançada em 1973, no primeiro álbum homônimo do grupo Secos & Molhados, com composição de João Ricardo e Luhli. Trazendo superstições e influência da música portuguesa, essa se tornou uma das canções mais famosas da banda.

Secos & Molhados foi uma banda brasileira que surgiu na década de 70, constituída por João Ricardo, Ney Matogrosso e Gérson Conrad.

Então, antes de analisarmos a letra, escute a música ou, escute-a enquanto lê, a escolha é sua.



"O gato preto cruzou a estrada"

A primeira frase da música já traz uma superstição bastante conhecida: a do gato preto. Popularmente, o gato preto é um bicho que dá azar e, apesar de não estar explícito na letra, sabemos que está ali por esse motivo.

Essa fama do gato preto trazer azar surgiu durante a Idade Média. Primeiro, esses animais eram costumeiramente relacionados à bruxaria, ou eles eram animais de estimação de bruxas, ou as próprias bruxas transformadas. Isso acarretava em perseguições aos bichanos.

No ano de 1233, aproximadamente, houve ainda uma declaração do Papa Gregório IX, que dizia que os gatos pretos eram a própria encarnação do diabo. E, com a ascensão do cristianismo, essa fama acabou pegando e perdura até os dias atuais. 

"Passou por debaixo da escada"

A segunda frase traz outra superstição: nosso gato preto passa por debaixo da escada. E você sabe o que dizem sobre passar por debaixo da escada, né? Azar!

Essa superstição existe há 5.000 anos, tendo surgido no Egito. Para os egípcios, um triângulo era uma forma sagrada, representando a trindade dos deuses. Logo, uma escada encostada em uma parede forma um triângulo, então, passar por baixo dela seria uma forma de profanação.

Mais tarde, esse formato se tornou sagrado no cristianismo, representando a Santíssima Trindade, indo pelo mesmo caminho que no Egito. Outro motivo dito por alguns viria da Europa medieval, onde, em ataques à castelos, escadas eram colocadas no muro para que soldados subissem e, para defender, óleo quente era jogado de cima da muralha. Quem estivesse embaixo da escada se queimaria. Esse último, em uma opinião pessoal, faz pouco sentido.


"E lá no fundo azul
na noite da floresta.
A lua iluminou
a dança, a roda, a festa."

Nesse trecho não existe nenhuma superstição, mas ele serve para construir uma cena para uma narrativa que a música busca propor e para o momento de transformação que acontecerá mais para frente. Então, estamos em uma floresta, com fundo azul, podendo imaginar que seja o céu, com a lua iluminando uma dança, uma roda, uma festa. Essa última frase guardamos para daqui a pouco.

"Vira, vira, vira
vira, vira homem, vira, vira.
Vira, vira lobisomem
Vira, vira, vira
vira, vira homem, vira vira."

Você lembra que, logo no começo, foi mencionado a influência da música portuguesa? Pois bem. A última frase do trecho anterior (a dança, a roda, a festa) e esse trecho inteiro remetem à isso. O Vira é uma dança típica portuguesa, geralmente apresentada por grupos folclóricos, onde as pessoas formam uma roda e, a partir disso, se desenvolve toda uma coreografia. Uma dança de roda, uma festa.

O último trecho mencionado, então, remete à essa dança típica também. Porém, outros significados podem ser tirados dele. A menção de lobisomem traz a ideia de transformação, no homem que vira lobisomem, e vice-versa. 

Apesar da origem ser europeia, o lobisomem é uma criatura do folclore brasileiro, cuja lenda conta de um homem que se transforma em lobo nas noites de lua cheia. Vale lembrar que essa é uma música com muitas menções ao folclore, e isso continua no próximo trecho.

"Bailam corujas e pirilampos
entre os sacis e as fadas."

Essa parte vai pelo mesmo caminho de construir uma cena. Temos uma festa em uma floresta, com corujas, pirilampos, sacis e fadas dançando. 

O saci é a principal criatura do folclore, tendo suas origens no sul do Brasil, com influências indígenas e africanas. Já as fadas, apesar de não fazerem parte do nosso folclore, são seres místicos, um dos mais populares no mundo inteiro.

Sobre as corujas e pirilampos (vaga-lumes, para os que não sabem), vale lembrar que são dois animais noturnos, geralmente vistos à noite e bem, a letra da música constrói sua narrativa durante a noite, então não é de se imaginar que as corujas e pirilampos foram escolhidos aleatoriamente.


Depois desse trecho há apenas repetições, e não existe o porquê de explicar, ou tentar explicar, o que já foi falado. Essa é uma música simples, alegre, mas que possui seus significados. A importância do grupo Secos & Molhados muito se dá pelo momento histórico em que eles surgiram e pela forma como agiram diante disso, mas isso é um assunto para outro momento.

Para alguns, a letra da música é uma referência metafórica para a homossexualidade, onde o momento de vira homem, vira lobisomem seria uma referência para homens que, na sociedade passam uma imagem, e em boates gays se libertam. Em partes, essa pode ser uma interpretação que se dá por conta da performance do grupo Secos & Molhados.

Não deixe de comentar o que você acha da música e entende da letra. Te vejo em um mês!

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