Crítica | Cangaceira, por Pedro Mauro & Jairo Moreno


Arte por Pedro Mauro, Cangaceira publicado pela Editora Trem Fantasma

Ficha Técnica:

Roteiro Original: Matheus Ronn, Mans Reimer e Luiz Chiaradia
Roteiro (Adaptação): Pedro Mauro & Jairo Moreno
Arte: Pedro Mauro & Jairo Moreno
Distribuição: Editora Trem Fantasma
Gênero: Faroeste
Idioma: Português
Classificação Indicativa: +16


Ter um artista do calibre de Pedro Mauro, veterano dos quadrinhos, ainda ativo, lúcido e incansável em sua produção artística, é um privilégio que poucos países podem reivindicar. Sobretudo o Brasil, território vasto em imaginário, memória e contradição, onde existe um oceano de narrativas ainda à espera de exploração.

Nossa literatura, em especial, sempre foi bem servida em grandes contadores de histórias, vozes capazes de transformar o cotidiano em mito e o homem comum em personagem inesquecível. O mais fascinante é perceber como essa vocação narrativa parece transbordar naturalmente para outras expressões artísticas. Nos quadrinhos, no cinema, na música ou na pintura, há sempre essa pulsação brasileira que converte experiência em fabulação com espantosa organicidade.

Arte por Pedro Mauro e Jairo Moreno

Aqui, Pedro Mauro divide a criação com seu irmão, Jairo Moreno, artista que em nenhum momento se apequena diante da força estética do veterano. Há entre os dois uma sintonia visual que transforma cada página numa espécie de duelo silencioso entre estilos complementares. Pedro, tantas vezes associado à poeira dos saloons, aos desertos do faroeste clássico e à iconografia árida do western, é deslocado para outro território igualmente brutal: o Nordeste brasileiro, de terra rachada, calor implacável e violência entranhada na paisagem. Um cenário que, por vezes, parece ainda mais hostil e trágico do que o imaginário norte-americano que consagrou o gênero. O mais interessante, contudo, está justamente nesse deslocamento. Há um evidente exercício de reinvenção artística, quase um rito de retorno às origens. Os irmãos abandonam a zona de conforto estética e narrativa para mergulhar numa história profundamente brasileira, onde o sertão substitui o deserto americano sem perder a dimensão mítica. No fim, o que emerge não é apenas uma narrativa ambientada no Brasil, mas uma obra que carrega o peso simbólico da própria terra, de sua aspereza, de seus fantasmas e de sua identidade.

Arte por Pedro Mauro e Jairo Moreno

E quando menciono essa saída da zona de conforto, refiro-me sobretudo à herança estética que Pedro Mauro carregou ao longo dos anos em que trabalhou com Tex, na tradição fumetti da Bonelli, marcada por um traço mais clássico, rigoroso e fortemente calcado no realismo italiano. Em Cangaceira, porém, percebe-se com clareza a presença de Jairo Moreno como força de ruptura dentro dessa linguagem. Seus personagens possuem algo de mais caricato, mais expressivo, quase familiar em sua construção visual, distanciando-se do acabamento austero e naturalista ao qual o leitor dos quadrinhos italianos está habituado. O traço de Jairo concede aos rostos uma elasticidade dramática rara. Os olhos falam antes mesmo dos diálogos; a anatomia, por vezes levemente exagerada, amplia o peso emocional das cenas sem jamais descambar para a comicidade pura. E talvez esteja aí o grande mérito de seu trabalho: mesmo atravessado pela caricatura, ele nunca rompe o pacto de seriedade que a narrativa exige. O sertão concebido pela dupla permanece árido, sujo, empoeirado, quase barroco em sua brutalidade visual. Há, então, um choque estético fascinante acontecendo a todo instante. De um lado, a fluidez narrativa herdada da escola Bonelli, precisa, cinematográfica e seca; do outro, a expressividade quase febril de Jairo, que deforma sutilmente o real para intensificar sua humanidade. Essa tensão entre caricatura e realismo sujo acaba se tornando o verdadeiro coração visual da obra. Não como conflito, mas como fusão. É justamente dessa contradição que Cangaceira extrai sua identidade mais singular e sua força imagética mais poderosa.
Arte por Jairo Moreno


Narrativamente, Pedro Mauro demonstra um domínio absoluto das ferramentas da nona arte para construir ritmo, impacto e sensação de movimento. Há em Cangaceira uma busca evidente por uma linguagem mais cinematográfica, quase tátil em certos momentos, como na sequência de abertura em que a protagonista mergulha no mar tentando escapar dos assassinos de sua família. A composição dos quadros, o encadeamento das ações e a condução visual da cena produzem uma dinâmica que parece querer romper a imobilidade natural da página impressa. Nos tiroteios, então, Mauro reafirma uma habilidade que já lhe é característica. Poucos artistas brasileiros compreendem tão bem o peso visual da ação quanto ele. Cada disparo possui direção, impacto e cadência. E é justamente aí que a herança italiana continua pulsando com força. A influência da escola Bonelli permanece perceptível na clareza narrativa, na decupagem precisa e na fluidez clássica da leitura. Contudo, Cangaceira também marca um interessante gesto de ruptura dentro dessa tradição.

Arte por Pedro Mauro e Jairo Moreno
Em determinados momentos, a obra abandona discretamente a rigidez estrutural típica do fumetti. Elementos escapam dos limites dos painéis, atravessam quadros, prolongam movimentos e criam uma sensação de continuidade muito mais orgânica. São pequenas transgressões formais, mas que alteram profundamente a experiência visual da narrativa. A página deixa de funcionar apenas como compartimento e passa a respirar como fluxo. E talvez isso revele algo importante sobre o próprio Pedro Mauro. Existe em Cangaceira uma liberdade autoral que não parecia tão evidente em obras anteriores, como a Trilogia Gatilho, onde havia um compromisso mais rigoroso em preservar a identidade clássica do fumetti italiano. Aqui, ao lidar com uma história profundamente brasileira, enraizada no sertão, na violência e na iconografia nacional, Mauro parece se permitir experimentar mais, distender a linguagem, flexibilizar certas regras que antes pareciam intocáveis. Ver esse movimento em um artista tão consolidado é, por si só, uma das experiências mais interessantes que a obra oferece.



Gostei muito de ler esse quadrinho, principalmente por ver Pedro Mauro explorando um cenário que ainda não havia trabalhado com tanta força dentro do próprio Brasil. Existe algo muito interessante em vê-lo trocar o imaginário clássico do western pela brutalidade e pela dramaticidade do sertão brasileiro, sem perder a identidade narrativa que construiu ao longo da carreira.

Sobre Jairo Moreno, espero sinceramente que ele continue produzindo seus próprios quadrinhos, especialmente mantendo essa parceria com o irmão. Seu traço tem personalidade, expressividade e combina muito com histórias centradas no cotidiano brasileiro. Minha principal sugestão para ele seria investir em adaptações literárias. Consigo enxergar facilmente sua arte dialogando com autores como Nelson Rodrigues ou até Itamar Vieira Junior. Seria uma ótima forma de vermos ainda mais da força visual de Jairo aplicada a narrativas profundamente brasileiras.

Por fim, quero registrar minha gratidão aos irmãos Pedro Mauro e Jairo Moreno, que me enviaram esta obra autografada em dezembro de 2025, na época da Comic Con. Esta resenha, na verdade, já estava escrita desde janeiro de 2026, e por conta de problemas pessoais, não consegui publicá-la no momento devido. Ainda assim, há obras que parecem desafiar o tempo e exigem, cedo ou tarde, que lhes seja feita justiça. Eis, enfim, a ocasião de falar desta obra. Muito obrigado.

Se quer ler Cangaceira, você pode adquirir sua cópia diretamente na Trem Fantasma, ou até mesmo, na Amazon.

Nota final: 8,5



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