Crítica de Filme | American Factory


Dirigido por Julia Reichert e Steven Bognar, American Factory é um documentário lançado em janeiro de 2019. Vencedor de mais de 15 prêmios, conquistou o Oscar de Melhor Documentário de Longa-Metragem, o Los Angeles Film Critics Association Award for Best Documentary Film, entre outros, além de ter sido indicado para mais de 40 prêmios, incluindo o BAFTA e o Peabody Award 2020.

Ele começa contando a história de uma fábrica da General Motors, que acabou fechando em 2008 na cidade de Moraine, em Ohio, o que fez com que vários funcionários perdessem o emprego. Por conta disso, a Fuyao Glass America, empresa de produção de vidros para automóveis, decide abrir uma filial nos Estados Unidos e compra essa antiga fábrica, trazendo nova esperança para os moradores que ali residiam de conseguirem um novo emprego e fonte de renda. No entanto, o que começa a ser uma nova fonte de esperança e um recomeço, acaba se tornando uma luta por direitos trabalhistas.

No começo, nós vemos um pouco mais da vida de alguns desses funcionários e sobre o que eles estão achando do novo trabalho. É nítido a felicidade estampada no semblante, e é possível se sentir próximo de todos eles pela identificação que isso nos gera. Afinal, a conquista de um novo emprego, para quem estava a meses buscando uma oportunidade deixa o indivíduo aliviado. Conforme os meses foram passando, no entanto, o choque cultural entre os americanos e os chineses vai aumentando.

Documentário da Netflix, American Factory, leva o Oscar

Sendo a primeira produção da empresa Higher Ground, criada pelo casal Barack e Michelle Obama, conseguiu atrair o olhar da crítica e trouxe vários questionamentos a quem assiste.

“Queremos que as pessoas consigam afastar-se de si próprias e experienciar e perceber as vidas dos outros”, disse o ex-presidente dos Estados Unidos da América em sem Twitter, quando a série estreou na Netflix.“Uma boa história dá-nos a oportunidade de compreender a vida de outra pessoa. Pode ajudar-nos a encontrar algo em comum”.

E é justamente sobre isso que se dá o documentário, como a partir de um choque cultural é possível superar as barreiras para que se trabalhe em conjunto?

É interessante observar a forma de trabalho e visão de vida dos habitantes de um outro país. Na China, e isso é retratado no documentário, os funcionários estão acostumados a terem uma ou duas folgas no mês, e a trabalhar em jornadas de 12 horas por dia. Os americanos não concordaram com isso, e nem mesmo a legislação permite tantas horas trabalhadas assim. Parecido com o Brasil, onde o normal é ter pelo menos um dia da semana de folga e caso ultrapasse certa quantidade de horas trabalhadas, deve-se pagar hora-extra.

Advogados foram consultados sobre isso, pois segundo os funcionários chineses, os americanos eram "preguiçosos" e não trabalhavam o suficiente, o que prejudicava o ritmo de trabalho. Segundo os americanos, os chineses eram muito rígidos e queriam trabalhar em um regime que beirava quase a "escravidão", pois queriam ter o direito de ter um tempo para passar com a família e descansar.

Um dos diálogos que mais me chamou atenção foi justamente a respeito dessa questão da família, pois enquanto os chineses levavam meses para poder ver os filhos, os americanos conseguiam ir para casa diariamente, o que foi bem interessante de se olhar.

Para tentar unificar a empresa, alguns líderes americanos foram convidados a passar alguns dias na China em treinamento, para conhecer a cultura do país e da empresa-sede. O espectador consegue visualizar um pouco mais sobre os hábitos dos chineses, e sentir a aflição que os americanos passaram ao visualizar como as coisas funcionavam por ali.

American Factory”. O Melhor Documentário foi produzido pelos Obama ...

Em certo momento, enquanto um chinês reclama da produtividade dos americanos, o líder americano responde dizendo que só conseguiria fazer com que seus funcionários trabalhassem por horas a fio sem abrir a boca se colocasse uma fita em suas bocas, rindo e brincando. Ao que o Chinês diz, sério, "e por que não coloca a fita?". Essa foi outra cena que me surpreendeu bastante. Para nós, isso é visto com horror, e se uma empresa sequer ameaçasse calar a boca dos funcionários assim, provavelmente seria processada. Pode ser difícil para quem assiste ao documentário manter a imparcialidade, mas novamente chegamos a um dos propósitos dele: o de conhecer as histórias e uma nova realidade. Obviamente, foi bem legal ver como se dão as festas, comemorações, então nem tudo foi só horrores [isso dito por uma brasileira que pouco conhece sobre a China].

Um fato interessante é que, na China, antes de começar o expediente, o gestor chama sua equipe e os coloca em posição, quase como uma cena saída de um treinamento militar. Quando esse americano voltou aos Estados Unidos, tentou replicar essa experiência e os funcionários não entenderam, achando uma total perda de tempo reunir todo mundo e não dar nenhum comunicado importante, além de pedir para que eles ficassem em posição.

Como a empresa só continuava trazendo prejuízo, em comparação com as outras, a liderança americana foi cortada e o que deveria ser um "meio a meio" entre eles e os chineses, acabou sendo um espaço totalmente dominado pelos gestores chineses.

Com isso, as coisas foram piorando. As metas estavam cada vez mais agressivas, muitas tarefas com alta periculosidade e que demandavam atenção sendo solicitadas a um prazo cada vez mais curto, e inclusive alguns funcionários acabaram se machucando.

Foram surgindo cada vez mais protestos, a ideia da criação de um sindicato é discutida, e os conflitos se fazem presentes cada vez mais. É interessante pensar nesse movimento de empresas chinesas comprando fábricas nos Estados Unidos, e isso inclusive está chegando ao Brasil.

Recomendo bastante para aqueles que gostam de um bom documentário, queiram conhecer novas culturas e se interessam em saber mais sobre o ambiente corporativo e suas nuances.

Postar um comentário

0 Comentários