(WMF Martins Fontes/Divulgação)
Ficha técnica:
Título: The Witcher: Encruzilhada dos Corvos
Autor: Andrzej Sapkowski
Editora: WMF Martins Fontes
Gênero: Ficção/Fantasia
Número de Páginas: 248
Classificação Indicativa: +16 anos
Ano de Publicação: 2025
Sinopse: A juventude do bruxo Geralt é revelada em uma nova aventura no universo de The Witcher! Nesta prequel repleta de novas missões, tramas políticas e lutas contra monstros, antigos e novos personagens aparecem anos antes da história apresentada em O Último Desejo e Tempo de Tempestade. Será que o bruxo Geralt, inexperiente e recém saído de Kaer Morhen, vai conseguir lidar com a maldade dos humanos que conseguem ser mais cruéis que muitas das criaturas nas quais os bruxos são responsáveis por enfrentar?
Resenha: O universo de The Witcher veio para ficar. A cada ano o mundo visto pelos olhos do bruxo Geralt ganha novos contornos, seja por séries para a televisão, HQs, jogos de videogames grandiosos e até caríssimos board games. No meio de tanto conteúdo, quase se esquece que essa saga começou por meio de uma série de livros do autor polonês Andrzej Sapkowski décadas atrás. O escritor pegou os fãs de surpresa com uma aventura protagonizada por um Geralt bem mais jovem, inexperiente e até tímido comparado a outras vezes na qual o personagem apareceu nessas mídias.
Encruzilhada dos corvos mostra o quanto o universo de The Witcher é rico. Ainda assim, não é como se o livro fosse complexo ou difícil demais de se acompanhar. Os capítulos seguem uma estrutura clara de chegar em um local novo, investigar o problema, enfrentar o monstro com vários imprevistos e talvez ganhar uma recompensa por tudo. Essa estrutura de uma road trip episódica, semelhante aos moldes do primeiro livro, O Último Desejo, ajuda a trazer frescor às aventuras, já que diversos reinos e vilas são explorados sem ficar repetitivo. Geralt encontra novas culturas, povos e monstros diferentes que vão desafiar o protagonista a inovar e a amadurecer na hora de pensar estratégias para inocentes e ele mesmo saírem vivos.
“Choveu à noite. Pela manhã, tudo estava envolto por uma neblina densa, úmida e pegajosa. Teias de aranha espalhadas pela relva brilhavam com o orvalho como colares de diamantes. Mas o tempo começava a melhorar, o sol penetrava a floresta por entre as folhas, anunciavam-se os pássaros. Em algum lugar no fundo da floresta, um pica-pau martelava um tronco.
Geralt chegou a uma encruzilhada e parou o cavalo”
As consequências de cada das aventuras à primeira vista desconexas são muito bem exploradas. O senso de urgência cresce a partir do momento que várias pessoas começam a usar Geralt como bode expiatório para inúmeras tramas políticas. Enquanto tudo isso acontece, desenvolve-se mais sobre o compasso moral do protagonista e a relação dele com Preston Holt, novo personagem e mentor principal de Geralt nesse livro junto com a sacerdotisa Nenneke, já conhecida pelos fãs desse universo. Essas relações ajudaram o livro a detalhar mais da origem dos bruxos e a relação futura que Geralt vai ter com eles e outros personagens.
Um dos maiores destaques do livro (e do universo de The Witcher como um todo) é a exploração do tema da moralidade dentro dos mundos de fantasia. O livro não decepciona para quem espera uma boa aventura de caça aos monstros, mas não faz isso sem deixar de abordar como a humanidade consegue superar essas criaturas no quesito crueldade incontáveis vezes. As missões do Geralt quase nunca são recompensadoras de verdade ou efetivas para mudar o status quo de algum lugar. Essa sensação niilista somada aos preconceitos que o personagem sofre por ser bruxo trazem um tom trágico a toda essa história de amadurecimento.
“Preston Holt ficou em silêncio. Na lareira, fogo crepitava. Geralt ergueu a cabeça.
– Será que eu deveria ter dito a ele que há alguma coisa de errado comigo, que devo ter algum defeito, que sou um bruxo que deu errado, que falhou? Que ele cometeu um erro ao contratar a mim, e não algum outro bruxo…mais bem-sucedido? Um que, mesmo sem elixires, não passasse por aqui que passei lá? O marquês entenderia? Duvido. Eu mesmo não entendo (...) Então o que é que eu tenho de errado? Preston Holt, você pode me explicar?
Holt se levantou.
– Não, não posso. Vamos dormir. Já está tarde”
Essa lógica ajuda a surpreender os leitores com um equilíbrio entre momentos estóicos e impulsivos do personagem, trazendo um senso de incerteza e surpresa positivo a cada capítulo. As ações ruins, afinal, vão trazer diversas consequências negativas para a vida do jovem, mas também para a visão geral que a população têm dos bruxos. Acontece que, quando Geralt finalmente consegue alguém para ajudá-lo ou recebe um prêmio em troca do próprio esforço, os momentos mais emocionantes do livro surgem.
Encruzilhada dos Corvos, inclusive, é ótimo para fãs de fantasia e aqueles já familiarizados com a franquia e desejam revisitar esse universo em uma aventura curta, mas com tudo que The Witcher sempre teve de melhor a oferecer. Embora seja uma prequel, ou seja, uma história situada cronológicamente antes das outras, o autor do livro não recomenda começar a leitura por meio dessa obra. De fato, Encruzilhada dos Corvos possui diversos fan services e acenos a acontecimentos posteriores, como personagens aconselhando Geralt a jamais se envolver romanticamente com feiticeiras, por exemplo. Não adianta reclamar da Yennefer, o jovem bruxo foi avisado!
“– São exatamente essas histórias. São tão heróicas que…
– Que são heróicas demais? Devem ser assim mesmo, menino. Os heróis devem ser heróis. E as histórias devem fazer com que eles sejam. E não se deve duvidar nem de um nem de outro. O tempo implacável a tudo apaga, não poupa nem o heroísmo – e as histórias e as lendas existem para resistir a isso, mesmo a custo da assim chamada verdade objetiva. A verdade é para aqueles que conseguem suportá-la. Você consegue? Não faça cara feia. Você não consegue”.
Ainda assim, a leitura não é exatamente impossível para quem não leu os outros livros, mas sabe um básico sobre o universo. Embora o livro não tome tempo algum parando para apresentar o próprio universo, os diálogos expositivos e o caráter da obra ser dividida em várias missões faz com que seja fácil acompanhar a narrativa cheia de releituras de contos de fadas e até mesmo peças de Shakespeare. Aos fãs dos jogos, é como acompanhar um Geralt jovem passando por diversas missões secundárias que, à moda da CD Project Red, às vezes são ainda mais reflexivas e interessantes que a trama principal, que também não deixa a desejar.
A prosa do autor é bastante direta ao ponto, sem rodeios. É quase cinematográfica e fãs dos jogos vão conseguir preencher facilmente as descrições das cenas com momentos e cenários. As batalhas são dinâmicas e muito bem descritas. Entretanto, o livro poderia contar com mais detalhes sobre o visual dos monstros, já que os cenários são descritos de forma vivida e poética, mas as criaturas não ganham um tratamento no mesmo nível. O bestiário presente em uma das edições polonesas seria uma ótima adição para reimpressões futuras.
“– Eu sou um bruxo – repetiu pacientemente Geralt. – Recebo pagamento quando sou contratado. Quando existe um contrato. Mas, se encontro por acaso alguém em perigo, se simplesmente me apresso a ajudar a alguém em risco de vida, não recebo dinheiro por isso”
O desenvolvimento de Geralt é mais um dos pontos fortes de Encruzilhada dos Corvos. Andrzej Sapkowski não tem medo de colocar o protagonista cometendo erros por ingenuidade, impulso ou simplesmente burrice. Às vezes o jovem fica em silêncio diante de provocações e desafios não por ser durão e se achar melhor que os outros. Pelo contrário, Geralt o faz por entender que está em desvantagem ou simplesmente não saber o que fazer. Ao longo do livro, o protagonista aprende a usar mais desse silêncio justamente para manipular outros personagens.
“– Duzentas moedas novigrandesas de ouro. Você já viu um dinheiro desses?
Geralt ficou em silêncio.
– Silêncio – constatou o conde, sorrindo repulsivamente. – Mas seus olhos brilham diante de Mamon. Quer dizer, você concorda. Com efeito, aquele panfleto, o tal Monstrum, fala a mais pura verdade sobre vocês, bruxos. Por dinheiro, vocês topam qualquer calhordice.”
Vale mencionar também a existência de capítulos seguindo estruturas diferentes, mostrando algumas trocas de cartas a partir da perspectiva de outros personagens da trama. Essa decisão ajuda a expandir o universo e dar mais perspectiva a como as pessoas enxergaram os feitos de Geralt ainda no começo da carreira como bruxo. Além disso, esses textos ajudam a conectar mistérios deixados pela trama e guardam algumas das maiores reviravoltas do livro.
Outros personagens que se destacam são o bruxo Preston Holt e a sacerdotisa Nenneke. O primeiro é um personagem bastante diferente de Vesemir, mas é possível dizer que foi Holt o responsável por ensinar a honra que vemos em Geralt seguir nas outras obras. A história do mentor bruxo serve como lição para Geralt: os erros da juventude se mantêm ao longo da vida, então é preciso ser sábio. Nenneke também não deixa a desejar, já que aconselha Geralt tal qual os leitores falariam de frente ao jovem bruxo. Alguns dos momentos mais engraçados do livro também contam com a presença da sacerdotisa que parece quase consciente de que está em um livro de fantasia, apontando tudo que Geralt precisa aprender para amadurecer.
“Me permite uma palavra antes de você ir embora?
– É claro – Ele subiu na cela. – É claro, Nenneke.
– A vingança – ela disse ao abrir o portão – traz alegria apenas para mentes tacanhas e primitivas.
– Eu sei.
– A vingança vai tornar você um fora da lei.
– Eu sei.
– Então vá e…
– E?
– Mate um a um aqueles filhos da puta.”
Todavia, apesar de tantos acertos, o livro não parece ter qualquer intenção de reinventar a roda ou de inovar tanto no gênero de fantasia quanto no universo de The Witcher. Andrzej Sapkowski não queria necessariamente explodir a cabeça dos fãs com Encruzilhada dos Corvos. A aventura é sim mais curta, mas ainda assim o livro se beneficiaria de mais algumas páginas aprofundando a política no período apresentado. Além disso, diversos os personagens já parecem se abrir mesmo poucos capítulos após conhecer Geralt, revelando alguns mistérios que facilmente poderiam ir para o final do livro, que é um tanto acelerado e até pula descrições de viagens de Geralt bastante presentes até então.
“Você não tem saída, jovem bruxo. Precisa entrar em acordo com sua própria imperfeição”.
É um livro seguro e com referências e retcons que soam como fanservice para fãs desse universo. É divertido perceber esses acenos, mas alguns soam como explicações desnecessárias, como se cada detalhe da roupa, estilo e característica de Geralt precisasse de um significado maior. Todas essas decisões são justas e não tornam a leitura ruim, mas era de se esperar mais vindo de Andrzej Sapkowski, um autor tão querido no meio da fantasia que parece consciente de tudo que torna o universo de The Witcher interessante, rico e profundo, mas sem vontade de subvertê-lo ou dar um novo frescor a ele em 2025, apostando no seguro.
O mercado literário da fantasia está cheio de subgêneros estrondosos como o da romantasia e muitas obras com sistemas de magia complexos que facilmente poderiam ser escolhidas no lugar de Encruzilhada dos Corvos, apesar dos acertos. É uma obra que respeita os fãs que já foram conquistados pelo universo de The Witcher e serviria perfeitamente para encerrar os livros anteriores, já que joga seguro e, apesar de um final acelerado, oferece uma reviravolta emocionante e inspiradora para Geralt. Se Sapkowski aproveitar o embalo e quiser explorar mais desse mundo no futuro, novos protagonistas, bruxos ou feiticeiras, seriam uma adição fantástica. A Netflix já jogou bastante a régua para baixo, então qualquer audácia do autor já será mais do que bem vinda!
VEREDITO
Embora a última cena do livro seja excelente, equilibrando um tom melancólico e poético ao mesmo tempo, mostrando que o certo é ajudar as pessoas necessitadas, mesmo que isso sacrifique objetivos pessoais e ganhos materiais, é difícil dizer que Encruzilhada dos Corvos seja uma obra indispensável. Mas fãs de fantasia à procura de um livro curto e cheio dos pontos altos do universo de The Witcher, vão encontrar no novo capítulo na história de Geralt de Rivia um excelente negócio como presente de Natal e leitura para uma viagem de Ano Novo.
O diretor narrativo, Philipp Weber, da CD Project Red, inclusive, disse que considera Encruzilhada dos Corvos como uma possível inspiração para o desenvolvimento de The Witcher 4. Agora cabe esperar para ver como as aventuras do jovem Geralt vão influenciar o futuro de Ciri!
NOTA: ★★★⯪☆ (3,5 estrelas)
SOBRE O AUTOR
Andrzej Sapkowski nasceu em 1948, na Polônia, e é um dos autores mais influentes da fantasia moderna. O que começou como um conto sobre um bruxo chamado Geralt de Rívia, publicado na principal revista polonesa de ficção científica e fantasia, Fantastyka, tornou-se uma das franquias mais celebradas e em constante evolução. Traduzido para mais de 40 idiomas, o universo de The Witcher continua a se expandir, conquistando novas gerações de leitores. Recebeu inúmeros prêmios, incluindo o David Gemmell Legend Award (2009) e o World Fantasy Award for Life Achievement (2016). Em 2024, a revista Forbes nomeou The Witcher como uma das 30 maiores séries literárias de todos os tempos. Sapkowski também é autor da Trilogia Hussita, uma combinação de ficção histórica e fantasia, ambientada durante as turbulentas Guerras Hussitas do século XV (cujo primeiro volume, Narrenturm, foi lançado por esta editora).




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