Resenha: The Witcher (Livros 1 - O último desejo e 2 - A espada do destino)



"Não sou um santo eremita e não pratiquei apenas o bem ao longo de minha vida."

O crescente sucesso de The Witcher nas mais diversas mídias não é um mero fruto do acaso e a obra, em seu formato original, consegue empreender o sucesso vindouro em suas mais diversas mídias, sendo a mais recente a da televisão com o seriado da Netflix. Foi criado por Andrzej Sapkowski, um ex caixeiro viajante da Polônia que trabalhava também com a tradução de histórias fantásticas, e em uma competição de contos que deu via a seu personagem principal e ao seu mundo fantástico. No Brasil, a editora Martins Fontes é a responsável pela publicação dos oito livros já escritos.


Andrzej Sapkowski
Em The Witcher, acompanhamos a saga do bruxo Geralt de Rívia, uma espécie de "caçador de recompensas" de monstros. Nesse universo, todos os bruxos são separados ainda crianças, muitos através da Lei da Surpresa - uma regra universal em que uma pessoa promete a primeira coisa que ver ou descobrir ao retornar para seu lar na qual não tinha conhecimento. Todas as crianças separadas para serem bruxos passam por um vigoroso processo de transformação física, chamado por muitos de mutação. Nesse processo, aproximadamente 70% das crianças morrem, as que sobrevivem iniciam uma sequência de treinamentos para elevarem ao máximo suas capacidades físicas e aulas, a fim de possuírem um vasto conhecimento sobre todos os monstros e seres que habitam esse universo fantástico. Após concluírem o treinamento, todos recebem um medalhão de lobo, que tem a capacidade de pressentir a presença de magia e monstros, e partem pelo mundo procurando contratos e pessoas que necessitem de seus serviços e estejam dispostas a pagar por eles.

Geralt, que possui a alcunha de lobo branco e açougueiro de Blaviken, acaba se sobressaindo aos bruxos comuns e sua fama rapidamente se espalha pelos reinos, sendo já reconhecido a muitos dos locais aos quais viaja. Dotado de um código de conduta que leva a risca, o personagem consegue com sagacidade, inteligência, desempenho físico (e muito sarcasmo) resolver diversos problemas ao longo das narrativas. Um fator interessante da obra é a capacidade humana que o personagem possuí. Os bruxos são conhecidos como mercenários, aberrações desprovidas de sentimentos que só se interessam por dinheiro. Geralt vem exatamente para quebrar essa conceito pré concebido nas pessoas, mas é visível o quanto o personagem sofre por sua "condição", o que não o impede de demonstrar superioridade em diversas situações. Em um das histórias, um monarca que já havia se recusado a pagar Geralt anteriormente o contrata para um novo serviço, utilizando argumentos pouco convincentes, e o bruxo aceita para evitar um conflito local.


O fator mais curioso e interessante sobre The Witcher é a base mitológica que o autor utilizou para construir um universo que dialoga com diversas culturas. Tendo como base muitos mitos eslavos, germânicos, escandinavos e de outras culturas, até mesmo alguns que assemelham-se com mitos brasileiros. Tal "apropriação" reflete a própria história da Polônia, um local com uma etnia e língua que tem origem de diversos povos distintos que colaboraram para o enriquecimento da cultura local. Um exemplo disso poderia ser a criatura Alpe, um ser mitológico da cultura germânica que causava pesadelos no sono de suas vítimas mulheres, tal criatura também deitava em cima do peito da vítima, causando dificuldades respiratórias e poderia se alimentar de sangue ou leite da mulher que atormenta, o que reflete na característica vampírica que o ser adota no universo de Sapkowski. Além da diversidade mitológica presente na obra, o primeiro livro também mescla muito com contos de fadas, trazendo uma nova visão, mais adulta, para um universo apresentado muitas vezes de forma infantil. É curioso ver uma versão em que um príncipe tenta contratar um bruxo para localizar a proprietária de um sapato de cristal esquecido em uma festa, ou que uma princesa sofre a tentativa de assassinato por uma antiga maldição e acaba vivendo com sete anões com os quais pratica roubos e delitos por diversas regiões.

Os dois primeiros livros são compilados dos diferentes contos escritos por Sapkowski. Essa narrativa acaba funcionando muito bem, pois conseguimos ter histórias curtas narrando os feitos do personagem principal e seus coadjuvantes, Jaskier e Yennefer, que acabam participando de várias histórias. Essas histórias acabaram sendo muito bem aproveitadas pela Netflix ao criar a série do livro. Aproveitando que a produtora foi citada, se você, assim como eu, teve um contato inicial com o bruxo por conta do seriado, vale ressaltar algumas diferenças do livro: Geralt não é um personagem tão carrancudo, ele acaba sendo muitas vezes um personagem sensível e com linhas de diálogo muito consistentes; Jaskier não parece ser um personagem tão chato e na verdade, Geralt gosta muito de sua companhia durante as viagens; a personagem de Ciri só começa a ser explorada mesmo a partir do terceiro livro, sendo sua caçada ao bruxo algo citado sem tantos detalhes e temos a presença dos elementos de contos de fadas.

O mais incrível de toda obra - que já conseguiria ser digna de admiração só pelo seu bestiário - é a discussão de assuntos sociais atuais em uma camada mais profunda. A narrativa aborda muito o preconceito que humanos têm com criaturas diferentes de si, sendo até mesmo citado "elfo bom é elfo morto". Tal discussão incute diversas autorreflexões que o leitor pode perceber durante a leitura: identificamos povos que precisam sobreviver à margem da sociedade, simplesmente por nascerem da forma que são, tais povos também são referenciados como criadores da magia que foi apossada pelos humanos, um contexto muito similar ao que vemos em nossa história com a escravidão e o aproveitamento de um povo sobre outro. Sapkowski sabe muito bem levantar tais assuntos e descreve-los em meio a conflitos políticos e econômicos de forma magistral.
Todos os livros já publicados da saga de Geralt.

O sucesso de The Witcher é algo universal, tendo conquistado fãs de livros, quadrinhos, jogos e televisão. Vale a pena explorar tais características em todas as mídias possíveis, sendo a leitura a mais recomendada, pois uma história que brinca tanto com a imaginação daqueles que a experimentam deve ser aproveitada em seu contexto original que propicia o maior desenvolvimento da imaginação: os livros.

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