Crítica | "Mank", um breve trecho sobre a política hollywoodiana

Uma das frases mais recorrentes entre roteiristas é "escreva sobre o que você sabe". É assim que Fincher entende e nos mostra como Herman J. Mankiewcz deu vida ao clássico "Cidadão Kane".

“Seven” (1995), “Clube da Luta” (1999), “Zodíaco” (2007) e “Garota Exemplar” (2014) fazem parte do currículo do diretor e, mesmo quando entrou em um hiato para filmes, ele agora contratado pela Netflix, produziu a série Mindhunter, que também segue muito alinhada com suas outras escolhas narrativas: um thriller com análise psicológica profunda das personagens. Então, o que esperar exatamente de uma biografia dramatizada sobre um dos roteiristas mais lembrados da história do cinema, tanto pela era em que viveu, quanto pelo filme que escreveu dirigida por David Fincher? 

Sabemos que sua tentativa passada com um drama em “O Misterioso Caso de Benjamin Button” (2008), Fincher não agradou a muitos, principalmente por praticamente suprimir sua identidade visual. Contudo, a surpresa dessa vez é boa, porque ele não esconde seu estilo e, inclusive, o utiliza para criar ainda mais camadas para aquela guerra política velada que perdurava durante as décadas de 30 e 40 em Hollywood.

O roteiro é de Jack Fincher, pai do diretor que passou muito tempo estudando a Era de Ouro do cinema americano e especialmente sobre a produção de Cidadão Kane, e escreveu o script há muito tempo, mas David até o momento não tinha encontrado a oportunidade certa para produzir o longa. Agora, com seu pai já falecido, Fincher conseguiu o apoio da Netflix e, segundo o mesmo, com algumas alterações no material original apenas para poder filmá-lo, ele ainda manteve a autoria apenas no nome de Jack. Entretanto, essas mudanças podem ter sido significantes para o desequilíbrio narrativo que impacta, negativamente, o encerramento por causar uma certa confusão não premeditada, mas chegaremos lá.

A história em “Mank” se passa em duas linhas de tempos diferentes: uma no presente que é marcada por Mankiewcz (Gary Oldman) se recuperando de um acidente enquanto é requisitado por Orson Welles (Tom Burke) para escrever o roteiro de Cidadão Kane em um curto prazo; e uma do passado que mostra as relações de Mank dentro da indústria hollywoodiana no final da década de 30 e começo de 40. O tempo atual é marcado por uma tensão entre Mank e sua assistente Rita Alexander (Lily Collins) que possuem personalidades opostas e precisam trabalhar juntos pela finalização da obra. A questão é que Mank é caracterizado pelo seu alcoolismo, e, embora não seja uma pessoa ruim, possui um temperamento difícil e uma atitude sarcástica, o que contrasta com a passividade e elegância de Rita.

Já o passado é preenchido como se fosse uma memória que influencia a criação da história que Mank está desenvolvendo. Em uma rede política intensa, temos personagens que marcam pessoas reais que realmente movimentaram e comandavam as dinâmicas da época, entre elas William Randolph Hearst (Charles Dance), Louis B. Mayer (Arliss Howard) e a atriz Marion Davies (Amanda Seyfried), que consegue transitar entre a frieza dos grandes magnatas e a ausência de polidez de Mank, sendo um elo entre os dois núcleos e que foi belamente interpretada por Seyfried.


Esteticamente, todo o universo daquela época é impecavelmente realizado. Fincher apresenta um domínio técnico impressionante quando mimetiza as técnicas estéticas de "Cidadão Kane" para aplicar no filme contemporâneo, o que faz toda uma nova geração se deparar com o clássico e sua beleza. A profundidade dos planos, o equilíbrio de sombras e os figurinos, principalmente de Marion, criam uma profunda beleza para todo aquele clima pesado de política e desonestidade. Infelizmente, o ponto que fere o filme se encontra justamente em sua história. Por mais que exista um esforço didático em fazer com que qualquer público entenda o jogo que está sendo projetado, ainda assim é uma obra que não consegue sair tanto do seu nicho, mas agrada a Academia por ser extremamente referencial e prestar uma homenagem a própria indústria cinematográfica hollywoodiana. Já em seu contexto do presente, a precisão técnica continua presente e até prende mais nossa atenção em uma situação que pouco se valoriza por si só, mas mesmo assim, o valor final das ações desempenhadas pelas personagens é terminar o roteiro, e como se trata de um conto biográfico sabemos o final, então por uma boa parte do tempo nada se move exatamente. 

O ponto de virada se dá quando Mank, que antes não havia se importado com os créditos pelo roteiro por estar desacreditado pela indústria, repensa e pede para Orson Welles voltar atrás. Nesse instante, é revelado um antagonista que passou a maior parte do filme escondido e simplesmente não é desenvolvido. Fincher queria evitar que o longa atendesse o popular artigo da crítica Pauline Kael que fala sobre Orson Welles não ter participação no roteiro de "Cidadão Kane" e do menosprezo que a indústria tinha com a classe de roteirista, mas também não queria deixar de representar aquilo que Jack Fincher acreditava. O que gerou um terceiro ato que parece totalmente deslocado dos demais e também insatisfações instantâneas.

Portanto, Mank é uma personalidade complexa, mas dentro da corrupção e ganância daquela Hollywood que cada vez mais prioriza o dinheiro ao invés da arte, faz com que ele pareça uma boa figura. Não há santos, você pode ser um frio magnata, mas ainda fazer de tudo por sua amada como Hearst, pode ser como Marion, bondosa, gentil, mas ainda assim a amante ou assumir a carapuça de Mank: inteligente e, de certa forma, justo, mas que entra em decadência devido ao alcoolismo e as brigas que arranja ao estar alcoolizado. A indústria do cinema cria raízes destrutivas e capitalistas como qualquer outra, mas o que a diferencia é o glamour que rodeia seus membros como um fino véu, e foi sobre essa vivência de aparência que Mank conseguiu idealizar e criar Charles Foster Kane.

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