Midsommar: O Mal Não Espera a Noite


Sabe aquele lugar escuro dentro de você, que tenta negar por muito tempo até que, finalmente, precisa aceitar que existe? Midsommar consegue passar seus dedos gelados justamente nesse canto da nossa mente.

A primeira vez que assisti fiquei com vontade de parar e sair correndo a cada minuto, com um medo crescente como se tivesse alguém me espionando e eu precisasse ir embora rápido. O filme inteiro te passa essa sensação, desde o primeiro ao último minuto. E por mais que você tente negar, ele consegue penetrar as defesas da sua mente. Midsommar: O Mal Não Espera a Noite fala sobre a vida e a morte, sobre culturas, sobre diferentes visões de mundo, sobre senso de comunidade e também fala sobre vulnerabilidade, sobre dor, sobre você perder o controle de sua vida, sobre você se perder e se encontrar.

O núcleo principal gira em torno da personagem Dani, que sofre uma grande perca na família, a deixando completamente abalada, mas antes disso já nos era apresentado que ela tinha alguns problemas pessoais, pois é mostrada conversando com uma amiga sobre suas inseguranças com relação ao namoro enquanto toma remédios no seu banheiro.

Inclusive o segundo núcleo gira em torno de seu namorado, Cristian. Cristian quer terminar o namoro e conta com o apoio de seus amigos, deixando bem claro que Dani não é bem vinda naquele círculo, ficando sempre uma tensão e um silêncio quando ela está presente. Mas Cristian não sabe como tomar essa iniciativa.

Quando a tragédia na vida de Dani acontece, ela busca refúgio no namorado. Uma das melhores sacadas do filme são os closes. Cristian fita a câmera, que foca em seu rosto, enquanto Dani grita no seu colo. Longe de mim defender esse rapaz, mas quantos de nós não ficaram, ao menos uma vez na vida, presos a um relacionamento onde queremos dar um ponto final, mas nunca encontrando o momento certo para tomar essa decisão?

O filme brinca com isso, com os verdadeiros sentimentos das pessoas, sem colocar ninguém como o bom ou como o malvado. A câmera lenta no primeiro cenário nos conduz a um abalo sentimental forte, profundo e desagradável, despertando dentro de nós uma curiosidade de ir até o fim dessa história, junto com uma vontade de se manter longe - e, ainda assim, cada cena te trás para mais perto e perto.


Dito isso, o ponto mais delicado e forte do filme é a solidão. Dani é apresentada como a própria personificação da solidão: ela passa por um grande trauma, ela tem ciência de que o namorado não está 100% com ela e talvez até suspeite de que seus amigos apenas a suportam e dão suas companhias por pena, ou por consideração a Cristian. É fácil repararmos que a sensação de não pertencer a nenhum lugar, de não ter ninguém no mundo, esse espinho gelado, faz com que a gente aceite qualquer migalha de atenção.

Isso fica claro em tantos pontos da trama, como quando Cristian esquece o aniversário de Dani e ela fala para o amigo Pelle que a culpa é dela por não ter lembrado ele. Quantos de nós já não passamos por situações assim, onde encontramos desculpas em nós mesmos, para justificar as ações do outro, numa tentativa de mantê-lo a salvo do julgamento dos outros? E também para mantê-lo por perto.

O filme tem quase duas horas e meia de duração, que passam como se fossem cinco minutos. Tendo nos apresentado a abertura e o início da trama, Dani, Cristian e seus amigos de faculdade, Pelle, Josh e Mark, partem em uma viagem de alguns dias ao interior da Suécia, a uma pequena comunidade isolada que é a terra natal de Pelle, que está prestes a comemorar o solstício de verão.

E, no decorrer da trama, vemos uma comunidade que celebra a vida, a morte, os antepassados, as runas e os ritos sagrados. E nos últimos segundos, a última camada nos é apresentada: libertação. Somente nesses instantes finais, que entendemos toda a frustração e tristeza que ela sentia, ainda havendo raiva por todos os acontecimento que lhe machucaram, e tendo que encarar de uma forma abrupta e cruel que Cristian não era e nunca foi um bom namorado. E com os últimos acontecimentos, mesmo que tenhamos vontade de vomitar em cada cena, vemos a libertação de todo o peso que ela carregava, desde o começo de sua história, desde antes do filme começar.

Será que ela realmente se sentiu ali abraçada, quando esteve no meio das outras moças, e quando o grito de todas se tornou um só? Será que ela encontrou ali uma nova família, se sentiu acolhida como a muito tempo não se sentia, e decidiu permanecer? Ou será apenas que ela teve uma perspectiva de vida que a muito tempo não tinha e poderia ter, finalmente, o seu recomeço?

Midsommar é terror para quem tem estômago forte. Não somos atordoados pela ignorância e por algum culto cego a entidades obscuras, tudo ali é muito bem embasado e encaixado, para envolver personagens e espectadores. Todas as reflexões são bem perturbadoras, porque, às vezes, as luzes nos dão muito mais medo do que a escuridão.



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