Review: O Caso dos Estrangeiros – Uma representação realista e angustiante da realidade de muitos

Divulgação/Paris Filmes

Quando o assunto é um filme sobre refugiados de guerra, estamos acostumados a narrativas ambientadas na Segunda Guerra Mundial. Muitas vezes esquecemos da atualidade e de quantas regiões do mundo ainda sofrem com conflitos, e, principalmente, de quantas pessoas pagam por algo que não causaram.

O Caso dos Estrangeiros segue a linha narrativa de mostrar como uma única situação pode conectar pessoas distintas. A obra trabalha com cinco pontos de vista diferentes e caminha por questões profundas: até a pessoa mais ambiciosa tem algo a perder, nem todo “inimigo” é de fato um vilão, e a vida é preciosa, independentemente da idade ou origem.

Ficha Técnica: 

Direção: Brandt Andersen
Roteiro: Brandt Andersen
Produção: Brandt Andersen, Ossama Bawardi, Ryan Busse e Charlie Endean
Distribuição: Paris Filmes
Gênero: Drama
Idioma: Inglês / Árabe / Grego
Classificação Indicativa: 16

Sinopse

Uma tragédia atinge uma família síria em Aleppo e desencadeia uma reação em cadeia de acontecimentos que envolvem cinco famílias, espalhadas por quatro países.

O efeito dominó da guerra...

Inspirado no curta Refugee (2020), do próprio diretor Brandt Andersen, o longa constrói sua narrativa a partir de cinco perspectivas diferentes, mostrando a realidade daqueles conectados pela guerra: vítimas, soldados, contrabandistas e socorristas.

Divulgação/Paris Filmes

Brandt Andersen possui um currículo extenso. O diretor do longa, além de ativista, já participou de produções relevantes na indústria, tendo atuado como produtor executivo em obras como Feito na América, entre outros projetos de destaque. Porém recentemente ele veem trabalhando mais em projetos voltados ao drama humanitário.

A trama parte de um presente imediato e retorna a um passado recente na Síria. Sob a perspectiva da médica Amira, acompanhamos uma personagem neutra em meio ao caos, alguém que apenas deseja salvar vidas. Porém, após um ataque, ela é forçada a fugir com sua filha. Para sobreviver, precisa escolher um “lado” em uma guerra que nunca foi sua escolha.

Yasmine Al Massri (Quantico) entrega uma atuação contida e potente. Sua intensidade não vem de gritos, mas do olhar assustado e da tentativa constante de transmitir segurança à filha em meio ao horror.

Omar Sy (Lupim), conhecido por papéis carismáticos, interpreta Marwan, um contrabandista marcado por dualidades. Ao mesmo tempo em que é um pai preocupado com o futuro do filho, também demonstra frieza e uma ambição desenfreada ao explorar o desespero de  refugiados, sem ao menos sentir empatia pelo próximo, afinal o mesmo, também é um estrangeiro. Essa complexidade dialoga com a conhecida frase de Paulo Freire: “Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor.” O personagem já sucumbiu à dureza da realidade, e a reproduz no próximo sem o menor escrupulo.

Divulgação/Paris Filmes


O elenco como um todo sustenta o drama com atuações econômicas e realistas, assim, todos cumprem com excelência o que a proposta exige. Ziad Bakri (Vizinhos Bárbaros) interpreta o poeta Fathi e entrega um papel semelhante ao de trabalhos anteriores: um pai de família cujo maior desejo é ver os seus em segurança.

Saleh Bakri (Palestina 36) dá vida ao militar Alaa, um homem dividido entre a lealdade a um governo ditatorial e a própria consciência ao se deparar com inocentes sendo injustiçados pelo governo, além do dilema com seu próprio pai, que é um homem integro que não aceita o regime e nem que seu filho sirva a ele.

Já o ator grego Thanos Tokakis (Jogo do Poder) interpreta o socorrista Nikolas, que não mede esforços para salvar o maior número possível de vidas, independentemente de serem estrangeiros em situação ilegal. Ele representa a figura altruísta, movida pela empatia, mas também marcada por conflitos internos, especialmente o medo constante de não ter feito o suficiente. 

Um filme para olhares atentos...

A escolha narrativa de múltiplos pontos de vista funciona como ferramenta de conscientização. A cronologia não linear pode exigir atenção redobrada do espectador, mas é necessária para conectar as histórias e demonstrar que todos estão interligados.

O recurso narrativo escolhido, baseado no ponto de vista de personagens distintos, funciona como uma eficiente ferramenta de conscientização ao mostrar ao público que todos estão conectados, independentemente de barreiras linguísticas, culturais, ideológicas ou territoriais.

Por conta disso, a cronologia dos acontecimentos não é exatamente linear. A narrativa acompanha a trajetória de cada personagem, e os fatos se organizam a partir dessas diferentes perspectivas. Para alguns espectadores isso pode parecer confuso em um primeiro momento, mas é um recurso narrativo teoricamente necessário, já que a história possui vários protagonistas e precisa construir gradualmente a relação entre os acontecimentos.


Divulgação/Paris Filmes

O drama de caráter mais humanista cumpre bem sua função ao transmitir angústia, mistério e reflexão. Em diversos momentos o suspense toma conta da narrativa: justamente nos instantes mais cruciais da jornada de cada personagem, a trama utiliza cortes abruptos que deixam dúvidas no ar : “Será que ele sobreviveu?” ou “O que aconteceu agora?”. Aumentando a tensão e o envolvimento do espectador.

Outro ponto interessante é a forma como o filme aborda o racismo estrutural dentro de determinadas culturas. Em muitos momentos, ele aparece normalizado nas falas dos personagens, quase como algo cotidiano, mas seu peso se torna evidente quando exposto de forma mais direta. O longa também retrata a xenofobia presente nas relações sociais, muitas vezes disfarçada em discursos de preocupação ou medo. Nesses momentos, personagens justificam suas atitudes dizendo temer pela própria segurança, enquanto diminuem ou desconsideram a realidade de quem foi forçado a abandonar seu lar.


Divulgação/Paris Filmes


Um ponto que pode incomodar são alguns cortes bruscos na narrativa, que não dão continuidade imediata a determinados acontecimentos. Em certos momentos, por exemplo, um personagem aparece em situação de perigo e, na cena seguinte, já se encontra em outro país, sem que o trajeto ou a resolução daquele momento seja mostrado.

Possivelmente, essa escolha está relacionada ao foco do filme em apresentar apenas perspectivas pontuais dos personagens, evitando alongar demais a narrativa ou desequilibrar o tempo de tela entre as diferentes histórias. Ainda assim, para parte do público, essas transições podem soar como vácuos  narrativos, enquanto para outros funcionam mais como um recurso que desperta curiosidade sobre o que ocorreu entre um momento e outro.


Veredito

Uma narrativa humanitária necessária. Um filme que todos deveriam assistir para se colocar no lugar do outro. A realidade dos refugiados de guerra muitas vezes é retratada de forma superficial em outras produções, frequentemente reduzida a estereótipos que acabam reforçando um olhar preconceituoso sobre essas culturas, as retratando como ultrapassadas em todos os aspéctos.

Neste longa, porém, somos lembrados do quanto estamos mais próximos dessas pessoas do que imaginamos. Elas trabalham, estudam, têm famílias e compartilham sonhos semelhantes aos nossos, principalmente o desejo de viver em paz. A diferença é que, na imprevisível roda da vida, alguns acabam sendo atingidos por conflitos políticos e guerras, enquanto outros seguem suas rotinas sem perceber essa realidade.

Então temos o questionamento: E se, de um dia para o outro, sua vida fosse reduzida à tentativa de atravessar uma fronteira? Quantas escolhas você seria capaz de fazer quando a única alternativa fosse sobreviver?

Fontes: Paris Filmes / IMDB / Adoro Cinema

Cópia cedida para análise por … Espaço Z e Paris Filmes.

Disponível em: Cinemas. 

Nota Final: 9.0/10

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