Um Lugar Silencioso - Parte II | Crítica

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Uma sequência que embora mostre um diretor mais confiante sobre sua linguagem, tem uma narrativa fraca em comparação ao primeiro. A continuação de Um Lugar Silencioso (2018) tem sido algo esperado por muitos fãs. O filme marcou a estreia na direção de John Krasinski – mais conhecido pelo seu papel como Jim na série The Office (2005-2013) – no gênero de terror, em que também atua como protagonista. Surpreendentemente, o longa se tornou uma das maiores bilheterias do ano e conseguiu alcançar um alto patamar tanto de público quanto de crítica. 

Mirando no sucesso comercial – com um pretexto criativo que já facilitado pelo final aberto da obra – a adaptação foi rapidamente anunciada e filmada. Entretanto, devido aos impactos gerados pela pandemia e a ambição dos produtores em fazer a estreia somente nos cinemas, justificada que apenas salas adequadas conseguiriam transmitir todo potencial do filme, o adiamento foi inevitável. Entrando nos aspectos do filme, ele começa mostrando um pouco do início do apocalipse, introduzindo como as criaturas chegaram à Terra e o primeiro – e aterrorizante – contato da família principal com elas. 

Após essa breve introdução, a narrativa continua do mesmo ponto em que o primeiro filme havia terminado: Evelyn (Emily Blunt), agora com um recém-nascido, sai do local onde estava abrigada com seus dois outros filhos, Regan (Millicent Simmonds) e Marcus (Noah Jupe) em busca de melhores recursos. No meio do caminho, encontram Emmett (Cillian Murphy), um amigo do falecido Lee (John Krasinski) que se tornou um homem duro que não reconhece mais o valor da humanidade, baseado no que as pessoas haviam se transformado. Contudo, ele se torna uma peça-chave para a jornada de Regan em busca da fonte que reproduz a música captada pelo rádio da família, que ela acredita que se reproduzir a frequência que havia descoberto no primeiro filme poderia salvar a todos. 

O filme em si não é ambicioso em querer criar uma camada a mais para aquele universo inicial, sendo assim, vejo como equivocada a visão de que ele expande o mundo. De fato, há algumas revelações sobre como foi o procedimento de outras partes durante a invasão durante o arco de Regan e Emmett, mas ainda assim, elas ficam subjugadas a um segundo plano. A ação é colocada em primeiríssimo lugar, e não digo de forma pejorativa, afinal o diretor tem um controle muito interessante, criando sequências que realmente movem a história e criam a tensão tão característica da saga. No entanto, essa narrativa reduzida dá impressão de que houve uma limitação que impediu o surgimento de um roteiro que fosse mais independente, o que cria uma impressão final de que se trata de um resquício do anterior.

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Como dispositivo discursivo há uma espécie de rito de passagem para uma nova geração em decorrência do destaque para as crianças na trama. Com montagens paralelas entre eventos, usadas de modo exaustivo em alguns momentos ao cortar tensões, mas que na sequência final cumpre a finalidade de elevar a carga dramática. Os verdadeiros heróis são revelados, mesmo que tenham sido falhos em seus respectivos arcos. 

A intenção é boa, mas como já dito, a narrativa é rasa. Então, por exemplo, o amadurecimento que vemos de Marcus de alguém que depende de sua mãe para aquele que precisa protegê-la ocorre de um momento para o outro baseado na ação, mas que não reflete uma progressão satisfatória da construção da personagem. Levando em consideração o elenco adulto temos um destaque bem interessante que atribui alguns pontos bem trabalhados do longa. 

O contraponto entre Emmett e Evelyn sobre como os eventos com as criaturas transformaram as pessoas - desilusão e esperança, respectivamente - molda satisfatoriamente o caráter moral da obra. Emily Blunt consegue trazer uma expressividade que a transforma em um dos personagens mais interessantes e também protagoniza as cenas que exploram melhor as criaturas as quais não eram tão evidentes até então. Já com Emmett somos apresentados o ponto de que nem todos humanos ainda continuam os mesmos, e rapidamente somos introduzidos a esse núcleo quando ele e a Regan são capturados por um bando de pessoas com uma aparência rústica e atitude hostil. 

Ambos arcos trazem atuações potentes e a chance de realmente expandir o mundo, mas o longa em si não se dedica a essa função. Portanto, a experiência adquirida pela direção transparece e faz com que a experiência para o espectador seja imersiva e satisfatória no campo da ação e construção da tensão. Por outro lado, temos uma superficialidade de situações dramáticas que acaba deixando um sentimento inacabado sobre o que foi visto. Para um filme hollywoodiano feito na intenção de continuar gerando lucros por causa de um sucesso de bilheteria, até que tem propriedades mais interessantes que muitos outros.

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