Crítica | Cruella


O novo Live action da Disney não humaniza apenas uma das suas vilãs mais icônicas, como também explora eficientemente o melhor lado dela: seu senso de moda.

Cruella de Vil teve sua primeira aparição como a antagonista do romance "101 Dálmatas", de Dodie Smith em 1956. Assim como sua adaptação na animação, seu núcleo girava em torno do desejo em capturar os famosos cachorros para fazer um casaco. Egocêntrica, vaidosa, exibicionista, temperamental e extremamente egoísta são formas de descrever essa vilã, mas seu visual precede sua essência. O cabelo repartido entre branco e preto, o volumoso casaco de pele, o cigarro longo preso a piteira e o rosto cadavérico são os elementos que a tornam impossível de não reconhecer.

Em 1996, Glenn Close deu vida a ela em seu primeiro Live action, mas agora assume o papel de produtora para deixar com que a nova adaptação conte com a interpretação de Emma Stone. O retorno da personagem como uma protagonista para o cinema traz a oportunidade de conhecer melhor os detalhes de Cruella.


Uma montagem habitual - um tanto preguiçosa - com um compilado de momentos rápidos é usada para construir a infância dessa outsider. Cruella ainda é Stella, uma garota com um visual despojado que não se sente pertencida ao seu meio social. É interessante como a expressão corporal da atriz mirim se assemelha com a de Maddie Ziegler nos videoclipes da Sia, o que configura ainda mais o lado lúdico da personagem em formação.

Já no âmbito familiar, a menina vive em uma dinâmica "mãe doce e filha rebelde" que embora sejam pessoas muito diferentes, também são próximas e nutrem um carinho sincero. Entretanto, sua vida começa a ganhar contornos para se transformar na figura icônica quando sua mãe é morta por uma ação que a própria garota se sente culpada. Uma vez órfã, ela vai para a grande cidade de Londres e encontra com garotos de rua, Jasper e Horace (capangas da mesma nos desenhos), e com eles vive na criminalidade para se sustentar. Enquanto isso, ela continua alimentando seu amor pela moda e, consequentemente, se transforma na adulta modelo de sua versão jovem.

Quando ela começa um trabalho formal como empregada em uma loja de grife da cidade, o diretor opta em utilizar um grande plano-sequência para indicar a posição inferior da mesma daquele cenário. O que parece ser uma atitude estética para sair da decupagem genérica do modelo Disney, logo se perde no momento em que a personagem consegue a atenção da ilustre Baronesa Von Hellman (Emma Thompson) e a narrativa passa a se assemelhar a "O Diabo Veste Prada" (2006). O primeiro ato é construído para que tanto a personagem quanto a audiência veja a maior inspiração da protagonista se transformar em suas nêmeses, sendo, justamente, esse o ponto de virada para que a jovem promissora Stella oscile sua persona para Cruella, uma fashionista louca nascida do seu trauma pessoal e das inspirações da indumentária da década de 70.

Diante dessa disputa de poder e influência que surge entre a Baronesa e Cruella, a parte mais inventiva e marcante do filme se destaca: o figurino. Para competir com a modelagem clássica evocada pela megera baronesa, a figurinista Jenny Beavan utiliza sua experiência com filmes de época (O Discurso do Rei, 2010) e de estética punk (Mad Max, 2015) para gerar um visual que mistura as influências da época e, consequentemente, torna Cruella em um ícone revolucionário. Não se trata apenas de uma quebra da lógica do que é belo, mas de canalizar os sentimentos expressados por aquela juventude urbana que preza em superar sua geração anterior através da indumentária. Como a protagonista não consegue expressar suas emoções de outras maneiras, são nesses momentos rápidos de performance que a conhecemos melhor. Além disso, Emma Stone consegue dominar os looks, não deixando com que fosse facilmente engolida por eles, algo muito recorrente no cinema de época.


Em questão de construção da história, existe a escolha da Cruella superar a Stella gradativamente, como se uma persona precisasse morrer para que a outra conseguisse ser plenamente trabalhada. Emma Stone consegue destrinchar bem essa mudança e tornar verossímil a incorporação da loucura. Contudo, uma espécie de moralismo barato se manifesta quando elementos para gerar afastamento da audiência com a protagonista são incorporados, como a negligência dela em relação aos seus aliados. Ao tentar reverter essa antipatia através de uma escolha narrativa baseada na existência de um mal maior do que o representado pela protagonista, a direção mediana não consegue girar completamente a trama e parece que apenas um tampão foi colocado para que Cruella não fosse renegada pelo público. O longa em si parece se importar tanto em ser validado como um material artístico que acaba desperdiçando seu próprio potencial.

Portanto, Cruella é um filme com uma força majoritária e, inegavelmente, competente em seu visual. Observar as mudanças de emoção, a rivalidade entre as duas personagens e a própria trajetória através das roupas é um exercício muito interessante. Em questão de condução da narrativa, a experiência fica muito aquém do que o sugerido. Isso não acontece por ser um "tradicional filme Disney", mas por empregar elementos formais para se validar enquanto algo fora do industrial, porém com a falta de sentido dietético, fazendo com que só escancare essa limitação de contar uma história.

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