Crítica | A Mulher na Janela


Mais uma vez, Amy Adams entrega uma atuação forte o suficiente para mover um longa-metragem melodramático, mas, por consequência de uma direção enferrujada e pouco inventiva, a atriz, assim como a trama, não consegue se distanciar de um lugar comum.

O aguardado e até então polêmico “A Mulher na Janela” estreou na última sexta-feira (14) pelo serviço de streaming da Netflix. A adaptação do livro de mesmo nome do longa escrito por A.J Finn enfrentou alguns problemas em sua produção. Ele estava sendo programado para estrear em 2020, mas o filme ficou fora do período de premiação por uma exibição que teve impressões muito negativas, fazendo com que refilmagens fossem necessárias. O atraso foi justificado pela necessidade de adaptar bem uma trama tão densa, mas infelizmente, a produção não utilizou com tanta eficácia esse tempo disponível.

O filme gira em torno de Anna Fox (Amy Adams), uma mulher que sofre de agorafobia, uma condição psicológica de extrema ansiedade causada pela exposição a lugares abertos, o que faz com que ela passe os dias trancada em seu apartamento. Para fugir dessa monotonia angustiante, Anna assiste filmes, toma vinho e, principalmente, observa a vida de seus vizinhos através da janela, em um estilo que inegavelmente referencia “Janela Indiscreta” (1954) de Alfred Hitchcock, um ganho estético muito bem aplicado a essa adaptação.

A história começa a criar camadas quando Anna começa a observar a família Russell e entra em contato com o filho e a mãe, Ethan (Fred Hechinger) e Jane (Julianne Moore), pessoas com quem divide alguns sentimentos e entende através de relatos que o pai e marido Alistair parece ser uma pessoa autoritária em seu lar. Em um dos momentos mais descontraídos e interessantes do longa, Jane e Anna passam a noite conversando. Toda energia satisfatória que se pode imaginar de Amy Adams e Julianne Moore contracenando acontece, embora o roteiro não ajude em muitos momentos. Logo após essa conexão, o fato revelado desde o trailer acontece: Anna observando por sua janela, como de praxe, vê Jane sendo assassinada, mas quando finalmente consegue ligar para polícia acaba desmaiando e ao acordar o que ela viu parece ter acontecido somente em sua cabeça, pois Jane (Jennifer Jason Leigh) está viva e nem se parece com aquela da noite anterior.



Existe uma carga dramática muito ampla e muito delicada para ser trabalhada com essa construção do primeiro ato. Uma situação de gaslight de uma personagem pode ser extremamente interessante para um espectador que é colocado próximo dela. Entretanto, a direção de Joe Wright não parece se importar tanto com isso e utiliza a doença da protagonista juntamente com seus hábitos questionáveis de tratamento para que ela seja alvo de desconfiança o tempo todo. Por mais que essa característica de direção funcione em outros filmes de Wright com diálogos mais expositivos, nesse longa temos uma protagonista isolada que é colocada para escanteio e toda narrativa parece perder as forças mesmo com plots twists interessantes.

A ambientação do apartamento como esse local ambíguo que reproduz as emoções da personagem é muito instigante para a construção de tensão. A culpa pelo que aconteceu com sua família junto com os efeitos de sua doença, despertam em Anna um lado melodramático-obsessivo muito bem interpretado por Amy Adams que consegue transmitir toda fragilidade dessa personagem que se sente constantemente oprimida. Seu processo de investigação a humaniza, mas a falta de conexão ainda mantém aquele lugar comum. Não precisava ser um filme didático sobre a condição da protagonista, mas até que ponto a desinformação é bem-vinda? Torna-se muito ambíguo e cansativo desacreditar nela.

Para o final temos mais uma vez um descaso. Uma obra interessante sugere a transformação da personagem a partir das atitudes da mesma, algo contemplado pelo filme, mas colocado de modo instável. A falta de ritmo toma conta da última virada em que Anna precisa enfrentar tanto seu medo quanto o perigo iminente da sua investigação, tudo para que isso gere uma superação otimista. Esse ponto se comporta como um final clichê em muitas estruturas narrativas, e o problema nunca é ser repetitivo, mas como é feito. Ao invés de nos sentirmos bem por aquela personagem, só encaramos como uma conclusão crua, nada mais.

Esse filme prova que mesmo com um bom elenco, uma boa história para ser adaptada e um bom repertório de referências cinematográficas, se a obra não assume uma direção com bom ritmo, tudo parece um grande desperdício. Do que adianta termos uma ótima entrega de Adams se ela parece sempre estar lutando com os mecanismos de Wright para poder brilhar? É um longa que se resume a sua premissa e empurra o telespectador para fora, logo sua experiência não avança muito mais do que aquela hora passada na frente da TV.

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