Crítica | "Minari" expressa o valor da memória para os imigrantes (COM SPOILERS)


Minari” é sobre a memória cultural, que, por vezes, a expectativa imperialista do sonho americano tenta arrancar dos imigrantes, mas que reside em resiliência nos núcleos familiares.

Com 6 indicações ao Oscar, o filme escrito e dirigido por Lee Isac Chung estreou no Festival de Sundance onde foi aclamado e começou um caminho de reconhecimento para a temporada de premiações. 

“Minari” representa um efetivo sucesso para a produtora A24 que ao longo desses anos não conseguia tanto espaço para seus longas por fazer diversas campanhas, mas com uma capacidade financeira bem menor comparada às dos grandes estúdios. Porém, dessa vez, ela conseguiu focar seu investimento em uma aposta que se concretizou aparecendo nas principais categorias da maioria das premiações, incluindo “Melhor Filme”.

“Minari” é um filme inspirado na história de vida do diretor e roteirista e mostra uma família de sul-coreanos imigrantes que chegam na zona rural de Arkansas com o sonho de construir uma fazenda que seria tanto o lar quanto a fonte de renda a partir da produção de alimentos coreanos.

As expectativas são criadas e movidas pelo pai, Jacob Yi (Steve Yeun), um homem que mistura em seu espírito a jovialidade sonhadora e o endurecimento pela experiência do trabalho, e possui ao seu lado Monica Yi (Han Ye-ri), uma mulher cuidadosa e cautelosa, equilibrando com a energia de seu marido. 

Juntos eles possuem dois filhos, a mais velha Anne Yi (Noel Kate Cho) e o mais novo David Yi (Alam Kim) - representação do próprio Lee Isac Chung em sua infância - que possui uma condição de saúde referente ao seu desempenho cardíaco, o que preocupa muito sua mãe. Jacob e Monica trabalham separando pintinhos pelo sexo em um incubatório para conseguirem se manter, usando parte do dinheiro para investir na fazenda que está sendo realizada gradativamente pelo marido. Por ambos ficarem fora de casa por muito tempo e tendo em vista que as crianças são pequenas, Soon-ja (Youn Yuh-jung), a mãe de Monica, é trazida da Coréia do Sul para morar com eles. É nesse panorama que se desenvolve a narrativa mais afetiva da temporada do Oscar.




A câmera de Chung registra aquela paisagem do campo utilizando muito a luz natural e trazendo sempre tons que remetem a um clima ameno criando um espaço realístico, mas estilizado como se fosse uma boa lembrança do próprio diretor. O arco de Jacob é justamente sobre essa dualidade que acaba desconstruindo a famosa concepção do sonho americano. 

Ele quer fazer parte desse mundo que exige um trabalho árduo para uma recompensa no futuro e acredita que seu esforço para construir sua fazenda, que muitas vezes fala mais alto do que sua limitação física e as necessidades atuais de sua família, será a chave para viver um futuro mais confortável.

Durante o desenvolvimento do longa vamos observando que a desmistificação da fórmula vendida pela visão americana não funciona efetivamente, pois a precariedade social enfrentada por imigrantes fala mais alto em muitos momentos. Além da questão material, ele também entra em choque com a cultura americana, em suas maneiras e na questão religiosa. 

O contraponto para ele é sua esposa, que não tem o mesmo otimismo e possui uma visão mais pragmática da vida, que o confronta quando a vontade dele parece sufocar a dos demais. Contudo, Chung não deixa de mostrar o afeto entre eles. Em uma cena muito delicada, Monica dá banho em Jacob, porque ele havia trabalhado demais e não conseguia levantar os braços de tanta dor, existe uma ternura e um carinho cotidiano. Eles se amam, mesmo que o sentimento seja constantemente desgastado pela preocupação econômica, é inegável o quanto ambos querem manter aquela família junta e feliz.


A entrada da avó na história é fundamental, pois ela representa a âncora da família para a cultura asiática. Ela é considerada uma estranha, pois nunca esteve nos Estados Unidos, não conhece nada da cultura e muito menos fala inglês, o que entra em choque principalmente com filho mais novo que nasceu em solo americano, e representa uma geração de imigrantes que busca mais identificação com o país em que está do que com sua ancestralidade. 

Essa relação gera momentos cômicos que fazem com que os espectadores se sintam parte daquele núcleo familiar e revela como o carinho entre eles é desenvolvido gradativamente. Na sequência em que David, em uma birra infantil de rejeição, engana a senhora e faz com que ela beba urina dele, vemos nascer uma trégua entre ambos quando ela defende o neto da punição física de seu pai. Com esse ato, um novo arco se forma na relação entre eles, se tornando uma parceria que cria em David suas raízes com a cultura sul-coreana que é simbolizada pelo cultivo do Minari, uma planta comum da região.

Duas quedas, para uma renovação, assim se fecha "Minari". A fazenda sofre com um incêndio e a avó acaba morrendo, ambos eventos abalam a estrutura familiar e colocam em xeque o casamento de Jacob e Monica. Mas, quando David passa em uma consulta para avaliar sua condição de saúde, é revelado que o garoto estava curado, o que logo é associado com o tratamento tradicional promovido pela falecida senhora. 

Lee não consegue com tanto primor fazer a transição dessas viradas da narrativa para o momento da conclusão final em que a origem da família havia permanecido, deixando subentendido que o longa não tinha um final apropriado. Existe essa metáfora imagética do Minari como a representação da herança cultural como uma cura para o sufocamento imperialista americano, mas, ainda assim, é vago e como o filme não equilibra o uso do tom sereno criando a impressão de estarmos em um eterno segundo ato que é cortado repentinamente.

Em conclusão, "Minari" é uma crítica ao imperialismo, mas assim como o tom da narrativa, também se manifesta de forma serena. Ele realmente desmonta a idealização do que é viver na América, mas ao mesmo tempo foca muito na questão familiar, parecendo mais um estudo de personagens do que daquela época em si. Parece que o longa acaba no mesmo ponto que começa, mas agora com uma sútil diferença: eles possuem o conhecimento de cultivar a memória.

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