Crítica | "Druk - Mais uma Rodada" e sua ambiguidade sobre o alcoolismo



Favorito do Oscar de 2021 para melhor filme internacional, “Druk” lida com o alcoolismo sem apelar para o moralismo, mas ao mesmo tempo sem esclarecer sua mensagem.

Representante da Dinamarca na corrida do Oscar, “Druk” é um filme que possui dois atrativos que conseguem o internacionalizar: Mads Mikkelsen, conhecido pela série “Hannibal” (2013-2015), é o protagonista que traz um apelo mais mainstream e Thomas Vinterberg, conhecido por “The Celebration” (1998) e “The Commune” (2016), é o diretor do longa e é uma referência no circuito de festivais. Esses fatores aliados a uma iniciativa do próprio mercado dinamarquês em expandir suas produções através do investimento na distribuição e campanha para as premiações foram o que impulsionaram esse favoritismo que se consolidou com a conquista do BAFTA (considerado o “oscar britânico”) para Melhor Filme Internacional.

"Druk'' conta a história de um professor de história chamado Martin (Mads Mikkelsen) que parece estar em uma fase estagnada de sua vida. A personagem já não se sente bem com a monotonia da fase adulta e entra em uma possível crise da meia-idade, o que leva a um desgaste de suas relações tanto em sua própria casa quanto em sala de aula. Inicialmente ele assume uma postura passiva, sofrendo em silêncio, até que seus sentimentos não parecem ser isolados, pois na verdade, seus amigos que também são colegas de profissão estão enfrentando situações similares. É com esse conflito inicial que eles acham um artigo científico revelando que um ser humano realiza plenamente suas tarefas se ingerir uma quantidade específica de álcool diariamente. Sem outras soluções aparentes, eles embarcam nesse experimento na tentativa de melhorarem suas perspectivas de vida, mas acabam chegando em um ponto comum em filmes de drama: o choque da realidade com a expectativa.

Quando um filme trata sobre o consumo de álcool sabemos qual é o caminho mais fácil: apontar a melhora efêmera causada pelo efeito do entorpecente, mas que rapidamente é substituída pelo vício e as consequências trazidas por ele. “Druk” não foge disso, mas diferente de muitos, consegue trazer mais potências para esses eventos. A introdução do longa é composta por jovens bêbados felizes pela cidade simbolizando um convite para o espectador adentrar nessa possibilidade, e consequentemente, faz com que a descoberta do estudo seja um motivador compreensível. Essa condução de Vinterberg é muito interessante, porque não coloca a bebida como um tentação, mas uma opção viável, não fazendo com que exista uma pré-concepção de fracasso para as personagens. Entretanto, mesmo que o desempenho de Martin como professor e marido melhorem, logo a narrativa volta para o lugar comum e expõe o resultado de um consumo exagerado representado pelo descontrole daqueles homens.


Contudo, o filme possui uma conclusão inesperada. Martin, após perceber as consequências do alcoolismo e descobrir que a deterioração do seu casamento estava pior do que imaginava, passa por uma fase complicada necessária para o reencontro com o autoconhecimento.

Ao atingi-lo, ele quer conquistar sua esposa de volta e quando consegue uma esperança para isso, em uma sequência muito bem filmada e altamente cativante, o professor celebra com muito álcool acompanhado de jovens como vimos no início. Existe um certo otimismo no final, o que gera um conflito entre acusar o vício ou colocá-lo como um elemento comum da vida. Vinterberg não consegue mesclar e nem tomar uma decisão sobre assumir uma visão mais conservadora, ou torná-la mais libertadora e experimentalista fazendo com que o filme como um todo seja uma ambiguidade mal planejada.

Quando analisamos a parte punitiva do longa não é absurda e chocante como em “Réquiem for a Dream” (2000) e “Clímax” (2018), o diretor opta por abraçar uma ideia mais real, baseada mais na ideia de sentimentos reprimidos que a bebida permite serem verbalizados. Mas, ainda assim, ele retoma a questão de que beber exageradamente vai ser um agravante para a infelicidade e o escapismo da realidade é efêmero. Existe uma certa inocência em criar esse tipo de narrativa sem um aprofundamento, levando em conta também que só conhecemos a fundo apenas Martin, negligenciando as outras histórias e alcançando um entendimento apenas superficial.

Portanto, é um filme robusto que tenta se distanciar de uma narrativa criada há muito tempo, mas cai em uma ambiguidade que não é bem-vinda, que expõe uma falta de sensibilidade e condução do diretor para manter sua história tão interessante quanto a premissa. A vida possui seus altos e baixos e precisamos reconhecer isso sem uma culpa constante, pensamento tão bem representado na sequência final, mas a construção para isso não precisaria ser tão medíocre.

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