Crítica | Rebecca - A Mulher Inesquecível

 

Dirigido por Ben Wheatley (“Free Fire” e “Kill List”), o novo filme da Netflix não foi o primeiro a adaptar o romance “Rebecca, a Mulher Inesquecível” da escritora britânica Daphne Du Maurier. Em 1940, o cineasta Alfred Hitchcock, conhecido por seus filmes de suspense, realizou com maestria a adaptação do livro para o cinema e acabou garantindo o Oscar de Melhor Filme no ano seguinte, o que fez com que ganhasse ainda mais crédito entre a crítica e o público em sua transição para Hollywood. A química temática entre Hitchcock e Du Maurier resultou em mais adaptações cinematográficas aclamados como “Os Pássaros” (1963), mas não podemos dizer o mesmo sobre Wheatley, pois sua recente releitura coloca sua compatibilidade com a autora em xeque. Essa abordagem é mais uma prova de que pode ser um erro tentar readaptar obras cinematográficas já consagradas.

O longa abre com uma verossimilhança com a versão hitchcockiana: uma lembrança sombria da grandiosa Manderley. Uma promessa de um suspense com uma estética gótica paira pelo ar, sugerindo uma homenagem em relação a obra antiga. Mas, tudo isso acaba se perdendo logo no primeiro ato, e o filme acaba seguindo um caminho que subverte o campo visual e temático, mas, infelizmente, de uma forma pouco autêntica. Para a imersão dessa nova narrativa, somos prontamente introduzidos aos belos e iluminados planos de Monte Carlo, que com uma direção de fotografia muito bem orquestrada, cria uma sensação onírica da paixão desenvolvida pelos protagonistas. Com certeza desde já ocorre um afastamento do original, mas não é de todo preocupante, pois nesse primeiro arco existe maior profundidade no romance, algo que é mais contido em sua primeira versão.

A protagonista interpretada por Lily James possui uma camada de desenvolvimento mais complexa do que aquela realizada por Joan Fontaine. O melodrama e a fragilidade da Mrs. De Winter é presente, mas a personagem também assume atitudes mais impetuosas e ativas às situações, um ponto muito positivo para a obra. Contudo, quando falamos do seu par romântico, o elogio não pode ser compartilhado, Armie Hammer não entrega o irreverente Maxim de Winter no mesmo nível que Laurence Olivier. Na verdade, vemos apenas uma versão monótona e sem força para levar a trama, quase um insulto em comparação com a importância do personagem. 

Porém, acredito que a maior decepção seja a Mrs. Danvers, sua aparência sombria, intimidadora e a incógnita sobre sua sexualidade (estimulada por sua lealdade com Rebecca que, na época, seria sua única pista de seu desvio heteronormativo devido ao código moral vigente) não são apresentadas. A nova obra escolhe por uma versão maternal com uma dualidade visual que cria um impacto aquém do esperado para a dinâmica de intimidação, tanto que nem o destaque no terceiro ato é suficiente para erguer sua imagem.

Mrs. De Winter (Joan Fontaine) e Mrs Danvers (Judith Anderson) em "Rebecca" de 1940

Sem dúvida é um filme com uma direção de arte e de fotografia que deve ser elogiada, mas tanto no roteiro e na direção se perde e o resultado final é algo superficial em que os plots twists não têm força suficiente para atrair a atenção. A experiência voyeurista de Hitchcock é substituída por uma escolha de planos mais amplos e cortes rápidos que só passam um olhar distante da direção em relação à autenticidade. Além disso, todos os pontos de virada não são acompanhados de grandes emoções, pois não existe um cuidado a respeito da figura de Rebecca durante o longa. 

Na versão de 1939, mesmo não aparecendo, a presença da primeira Mrs De Winter é nítida e se expressa de forma sufocante para as demais personagens, sendo um critério psicológico extremamente relevante, porém na nova trama a “mulher inesquecível” é apenas um aspecto que assim que resolvido é totalmente esquecido.

O filme é uma boa experiência se sua expectativa estiver consolidada nos figurinos e na ambientação, contudo, se você quer ter uma boa experiência com a história e sua narrativa, a versão de Hitchcock é uma boa recomendação. “Rebecca – A Mulher Inesquecível” não deve ser lembrada por sua versão pouco eficaz de 2020, por isso, como Martin Scorsese sempre incentiva, recorra à grandeza dos clássicos para ter uma leitura mais clara e crítica do cinema atual.

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