Resenha: Jantar Secreto

"Por trás de cada prato está a morte. As pessoas preferem fechas os olhos para isso, mas ela está lá. A morte"

Longos dias e belas noites, geeks

Poucos livros conseguem despertar cenas características e fortes no imaginário humano, Jantar Secreto, com toda certeza, é um desses livros. Com 368 páginas, publicado pela Companhia das Letras, em 2016, esse thriller literário foi escrito pelo aclamado Raphael Montes. O autor vem ganhando cada vez mais destaque, sendo seu livro, Bom dia, Verônica, escrito em parceria com a criminóloga Illana Casoy, já confirmado como série pela Netflix

A trama gira em torno de quatro amigos de infância que decidem se mudar de uma cidade, do interior do Paraná, para a cidade do Rio de Janeiro, a fim de iniciarem suas carreiras acadêmicas e buscarem melhores oportunidades profissionais. Dante, narrador e protagonista, cursa administração; temos também Miguel, que estuda medicina; Hugo, na área da gastronomia e Leitão, que vai para computação. Algo interessante sobre os personagens, a princípio, é que fica clara a inspiração literária para colocar nomes de autores nos personagens principais: temos Dante Alighieri (Divina Comédia), Miguel de Cervantes (Dom Quixote), Victor Hugo (Os Miseráveis) e Jorge Luis Borges (Ficções), sendo esse o nome real de Leitão. Até mesmo os carros recebem nomes de autores consagrados como Bukowski e Hemingway.

Após cinco anos na cidade maravilhosa, já em 2015, nada está maravilhoso para os amigos que, para levantarem uma grana que precisam muito, decidem realizar um jantar, sendo carne humana o prato principal. A ideia surgiu de uma adivinha besta: "Um sujeito estava andando pela rua quando deparou com um restaurante que vendia carne de gaivota. Pediu a carne, comeu, foi para casa e se matou. Por quê?" O que parece ser uma pergunta trivial para que os amigos adivinhem, é o ponto inicial para uma ideia que gera proporções enormes na trama. O que era para ser um único jantar excêntrico e exclusivo, acaba ganhando destaque e mais interessados, levando-os a precisar realizar mais e mais reuniões gastronômicas desse tipo. Os amigos logo trilham um caminho sufocante em que moral, lucidez e confiança são constantemente postas a prova. Quanta a resposta para a charada da carne de gaivota, os leitores poderão encontrar a resposta logo no primeiro capítulo do livro.

Em Jantar Secreto, a permuta apresentada, ou tema, é sobre o consumo de carne. Fica evidente o aspecto moral levantado na obra. Como não nos importamos como o sofrimento de um animal, mas ficamos tão transtornados ao vermos humanos passado pelos mesmos sofrimentos? Afinal, ao pegarmos uma embalagem de carne no supermercado, não fazemos a mínima ideia do proceder dela. Como citado: "A gente vive uma dieta inconsistente, suavizada pelo sabor. Temos pena do porquinho e da vaquinha, mas adoramos um bom bife ancho. Meu pai já dizia que a beleza sempre ocorre no particular, enquanto a crueldade prefere a abstração". Em muitos trechos, fica evidente o quão hipócrita o comportamento carnívoro é. Pessoalmente, lendo o livro, devo assumir que nunca me senti tão leve por ser vegetariano. 


A obra foge em determinados trechos do padrão para a escrita de um romance, o que fica sensacional. Há um capítulo, retratando o sequestro de um cadáver, que se passa todo na conversa do grupo de WhatsApp dos amigos; entre tensão e agonia, é normal se pegar rindo com memes que aparecem de forma oportuna e cômica. Algo que se torna marcante são os trechos com poesia de banheiro. Partes em que o autor apresenta citações encontradas em banheiros públicos. A princípio, achei um pouco banal e insignificante, mas revisitando a história, vejo como uma simples reflexão revela um novo prisma para o contexto geral, além de descobrirmos, posteriormente, de onde tais poesias são oriundas.

As personagens possuem bons arcos dramáticos, é sensacional ver a luta interna que Dante trava entre sua moral e seus desejos mais profundos. Num misto de desejo e consciência, nosso protagonista enfrenta uma verdadeira mudança pessoal. As descrições são exímias, fazendo com que leitores sensíveis pulem determinadas partes para não precisarem encarar a crueldade humana que, por mais que seja fantasiosa na obra, bebe da nossa própria realidade. O que pode ocorrer aos atentos é um forte indício do que se passa por debaixo dos panos. Diferentemente de Suicidas (primeiro livro publicado do autor), que o final me pegou totalmente desprevenido, antes de chegar a centésima página de Jantar Secreto, eu já havia compreendido o que estava acontecendo.  

Raphael Montes
Raphael Montes tem um poder de cativar o leitor para continuar virando páginas e mais páginas que é invejável a qualquer autor. O engajamento com a leitura é marca registrada do escritor que, através de ganchos literários e personagens cativantes, te faz ler mais e mais. A estilística também tem evoluído de forma progressiva, firmando cada vez seu espaço na literatura brazuca. Apesar de ser apenas o terceiro romance publicado do autor, ele já demonstra uma escrita digna de autores muito experientes e uma legião de fãs que atestam a qualidade de suas obras. 

No geral, Jantar Secreto é um livro que todos deveriam ler, sem exceção de credo ou idade. O livro tem toda a capacidade de incitar profundas emoções e deixar saudades ao concluir sua última página.

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