| Synapse Distribution/Divulgação |
A comédia, por si só, é um gênero que utiliza a realidade como elemento de sátira, muitas vezes para suavizar o peso do cotidiano. Contudo, em Vizinhos Bárbaros, somos confrontados com o quanto essa realidade pode ser ácida: um retrato da hipocrisia humana disfarçada de bons modos e civilidade. Não se trata de uma obra de proporções grandiosas ou de um grande evento cinematográfico, mas de um filme que aborda uma situação cotidiana e, ainda assim, consegue revelar a magnitude de seus impactos, mostrando como conflitos e guerras afetam profundamente a vida de diversos indivíduos.
Ficha Técnica:
Direção: Julie Delpy
Roteiro: Julie Delpy, Matthieu Rumani, Nicolas Slomka
Produção: Michael Gentile
Distribuição: Synapse Distribution
Gênero: Comédia, drama e política
Idioma: Francês
Classificação Indicativa: 14
Sinopse
"Vizinhos Bárbaros" (Les Barbares) é uma comédia francesa sobre uma pequena cidade na Bretanha que, em um ato de solidariedade (e buscando subsídios), decide receber refugiados ucranianos, mas acaba recebendo uma família síria, gerando conflitos e questionamentos sobre quem são os verdadeiros "bárbaros" na convivência.
Afinal, não apenas uma comédia, é um retrato da realidade dramática…
O longa é apresentado em dois formatos narrativos. Um deles utiliza a perspectiva em primeira pessoa, retratando a intimidade e a realidade de cada personagem; o outro assume uma abordagem documental, elemento essencial para a construção do enredo. Esse recurso é semelhante ao utilizado em sitcoms como The Office, que se valem do desconforto e de falas socialmente problemáticas como forma de humor , ou seja, exploram o conhecido “elefante na sala” como mecanismo cômico.
Contudo, essa escolha narrativa de Julie Delpy (Roteirista e conhecida por sua performance em Antes do Amanhecer), também funciona como uma reflexão sobre a bondade disfarçada e a hipocrisia às quais muitas pessoas se submetem para sustentar uma imagem de boa índole. Trata-se de um recurso eficaz na crítica construída ao longo do filme, evidenciando como certos indivíduos demonstram uma suposta virtude apenas quando estão diante de uma plateia.
As atuações, em sua maioria, são simples e contidas, sem exigir uma carga dramática excessiva. Ainda assim, merece destaque a atuação de Ziad Bakri (Farol da Ilusão), no papel de Marwan Fayad, o pai da família síria. O ator carrega com sensibilidade o peso de conduzir sua família a uma nova terra em busca de paz e sobrevivência. Seu personagem apresenta camadas raramente exploradas em outros filmes, que frequentemente estereotipam refugiados de origem síria, ignorando suas profissões, formações e trajetórias, reduzindo-os a imagens simplistas ou associadas ao terrorismo.
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No longa, contudo, essa lógica é subvertida. Marwan levava uma vida plena e bem-sucedida em seu país, abruptamente interrompida pela guerra. O ressentimento diante da necessidade de recomeçar do zero atravessa sua narrativa e levanta uma questão central: como alguém se sentiria ao ter de reconstruir toda a sua vida após já ter alcançado o sucesso? Trata-se de uma poderosa lição de perseverança, infelizmente inacessível a muitos diante das duras condições sociais impostas pela realidade.
Todo o elenco principal possui seus méritos. Em um primeiro momento, o tom documental adotado em algumas cenas, proporciona situações cômicas, provocando risos no espectador. No entanto, à medida que a narrativa alterna sua abordagem, o humor cede espaço à seriedade das falas problemáticas, revelando as camadas mais profundas das situações. Ou seja, as atuações em maioria se destacam pelo realismo, sustentando a credibilidade da proposta.
O simples que todos já imaginam…
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A pouca ousadia narrativa é o principal peso da obra. O chamado roteiro “redondo”, embora funcional, pode não agradar a espectadores que buscam uma construção mais complexa. O longa adota uma estrutura simples e previsível, semelhante à dos filmes natalinos, ainda que não pertença ao gênero, conduzindo o espectador por um enredo cujo desfecho pode ser facilmente antecipado desde os primeiros momentos.
Essa previsibilidade pode ser observada já nos primeiros contatos dos refugiados com os personagens da vila, quando cada interação é construída de forma a permitir que o espectador deduza facilmente o que irá acontecer. Há momentos em que as explicações sobre determinados fatos são superficiais, talvez isso tenha sido uma escolha criativa para reduzir a duração do filme e tornar a narrativa mais objetiva. No entanto, em algumas cenas, a inclusão de breves explicações não apenas enriqueceria a história, como também agregaria um caráter informativo à obra.
A resolução do momento de ápice do filme foi simples e facilmente deduzível. Um dos poucos momentos de clímax ocorre ainda na metade da duração, e, mesmo assim, apresenta uma resolução direta. Então, não há muito a se esperar de um filme baseado na realidade: não se trata de ficção, mas da triste vivência de muitos refugiados. Assim, o longa se constrói como um retrato do cotidiano, sem grandes reviravoltas narrativas.
Veredito
Uma narrativa simples e ancorada na realidade, cuja singularidade está concentrada na história dos refugiados, especialmente em suas vivências na terra natal, antes de serem obrigados a deixar a pátria e a vida que amavam. Esse tipo de enredo revela que, independentemente das fronteiras culturais, todas as pessoas possuem ou possuíam uma vida construída, afetos e rotinas.
A simplicidade da abordagem deixa isso claro, permitindo que essa realidade seja observada com um olhar comum, acessível e empático. De fato, não se trata de uma obra-prima da comédia dramática, mas o filme executa com eficiência sua proposta básica.
Cópia cedida para análise por Synapse Distribution.
Disponível em: Cinemas exclusivos para filmes alternativos e Prime Video (em alguns pacotes).
Nota Final: 8.0/10



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