Crédito: DC Comics
Hoje, Batman ocupa, de maneira quase incontestável, o posto de herói mais popular da DC Comics e, possivelmente, um dos três mais celebrados de toda a história dos quadrinhos. Embora Bob Kane tenha concebido o esboço inicial em 1939, foi Bill Finger quem lapidou o conceito, transformando-o na contraparte do Superman, o homem invencível que encarna a promessa de um futuro melhor. Se o kryptoniano representa a luz que desce dos céus, Batman nasce do chão, das ruas sujas e encardida de trevas de Gotham City, cidade erguida sobre corrupção, medo e crime.
Ali, onde o Superman age como força quase divina, o Morcego responde com precariedade humana. Não dispõe de poderes transcendentes, veste-se de sombras para enfrentar aquilo que nenhum deus parece disposto a tocar. É carrasco dos malfeitores, mas também produto do mesmo lodo que combate. Talvez resida aí o fascínio persistente que exerce: entre todos os seres extraordinários da DC, Batman é o mais próximo de nós. Não apenas por ser um homem comum, mas por ser um homem quebrado, alguém que, como nós, aprendeu a habitar as próprias ruínas e a transformá-las em motor de justiça.
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Crédito: Esboço original do Batman por Bob Kane (DC Comics)
A construção do mito do Homem-Morcego deu-se de forma processual, fruto de ajustes sucessivos mais do que de uma criação pronta, como do Superman. Porém, ainda que Bill Finger tenha consolidado as bases decisivas, a ideia do herói falho, atravessado por sombras que não se dissipam com a simples presença da justiça, já pulsava desde os primeiros esboços de Bob Kane, um vigilante de uniforme avermelhado, dotado de asas ostensivas e, sobretudo, de uma arma de fogo que o aproximava mais do carrasco do que do símbolo. Coube a Finger o gesto de contorcer esse desenho inicial, despindo-o do espetáculo fácil e aproximando-o da figura furtiva inspirada no Zorro, o justiceiro que não se anuncia, mas irrompe do escuro como consequência inevitável da própria noite.
A recusa às armas e à morte, decisões que parecem simples apenas em retrospecto, deslocaram o eixo moral do personagem para um território de tensão permanente, onde a violência nunca é solução, mas limite ético. A partir desse redesenho, ergueu-se Gotham, não como cenário, mas como organismo em decomposição, síntese do que há de pior nas pessoas, cidade feita de assassinos, corruptos e oportunistas que se alimentam da própria decadência. Nesse espaço saturado, Batman não é exceção luminosa, e sim produto direto do mesmo lodo que combate, um corpo que aprende a respirar onde todos sufocam.
Crédito: DC Comics
O que muitos parecem confundir ao reconhecer a imperfeição de Batman é convertê-la, de imediato, em rótulo de anti-herói sombrio, um bilionário enlouquecido, condenado a uma cruzada eterna contra bandidos que jamais cessam. Pessoalmente, essa leitura me soa empobrecedora. Acredito que o Cavaleiro das Trevas, embora concebido como contraparte do Superman, partilha da mesma bondade genuína e da mesma empatia fundamental; apenas as exerce por vias distintas, mais ásperas, mais humanas.
Batman não é negação do ideal de justiça, mas tentativa de construí-lo a partir da falha. Justamente por ser imperfeito, compreende o peso real de julgar e agir, a responsabilidade concreta que acompanha cada decisão. Ele conhece a injustiça não como conceito, mas como ferida inaugural , tendo em mente que a orfandade precoce que o arrancou da infância. Dessa experiência nasce sua ética, tendo sido vítima do caos, recusa-se não apenas a reproduzi-lo, mas impedir-lo também.
Crédito: DC Comics
É por isso que a decisão de Finger, a de que Batman jamais deveria matar ou empunhar armas de fogo, adquire um sentido decisivo. Rebaixar-se ao papel de juiz e executor destruiria aquilo que o define, tanto no imaginário popular quanto na percepção dos próprios criminosos de Gotham. Motivos não lhe faltariam para puxar o gatilho, para converter a dor em vingança imediata; mas ele compreende que essa vingança, travestida de justiça, seria apenas um egoísmo disfarçado, incapaz de responder ao sofrimento de tantos outros engolidos pelo sistema podre da cidade. Mesmo quando a morte de um criminoso se apresenta como solução tentadora, Batman sabe que não lhe cabe arrancar de alguém a possibilidade de mudança, nem repetir com outra família a mesma fratura que o marcou na infância.
Por isso, no fundo, Batman não é o homem enlouquecido que tantos autores insistem em sugerir. É, antes, um homem empático, rigoroso, irredutível com a justiça tal como ela deve ser, indiferente a status social, riqueza ou poder, justamente em uma Gotham onde a lei costuma ser vendida aos mafiosos, aos bilionários e aos capitalistas sem alma. Sempre que pode, ele fala em reabilitação: Harvey Dent, o próprio Coringa em A Piada Mortal. Quando Gordon afirma que é preciso “mostrar que do nosso jeito funciona”, recorda ao Batman que a via correta é provar que o caos sistematizado não é resposta, que ainda existe a chance de arrependimento mesmo para o mais perverso.
Essa compreensão atravessa a própria formação do herói. Antes de vestir o manto, Bruce Wayne escolhe a fome, o exílio voluntário, o abandono do conforto da riqueza para percorrer o mundo e forjar corpo, alma e espírito. Todo esse processo não visa à fabricação de um soldado, mas à construção de um símbolo: o sinal que rasga o céu de Gotham anuncia que a justiça será cumprida, ainda que pelas mãos de um homem falho e sem poderes.
Crédito: DC Comics
Se admitirmos que o fascínio pelos super-heróis excede o campo do entretenimento, impõe-se a pergunta sobre o que, de fato, procuramos neles. Não a perfeição irreal, mas um espelho disciplinado de nossas fraturas. Figuras como Batman funcionam como dispositivos simbólicos nos quais a cultura ensaia formas de lidar com culpa, medo e desejo de reparação; ao observarmos suas escolhas, experimentamos, em regime imaginário, modos de enfrentar as nossas. Nesse sentido, o herói fictício converte-se em mediador ético, não por oferecer respostas prontas, mas por dramatizar o conflito que antecede qualquer decisão moral.
A imperfeição humana não se apresenta como abstração, e sim como prática: decisões equivocadas, ressentimentos acumulados, limites que constrangem a ação. O Batman que hesita e ainda assim age oferece uma oportunidade para compreender tais experiências; não propõe a supressão da sombra, mas sua administração. O aprendizado reside menos na imitação literal do personagem do que no reconhecimento de que a virtude nasce de um trabalho contínuo sobre o que em nós é frágil e contraditório.
Desse ponto de vista, poderíamos nos reconhecer como “heróis imperfeitos”. A narrativa dos quadrinhos encena dilemas cotidianos, a tentação de responder à violência com violência, o apelo dos atalhos, o abandono dos princípios quando se tornam custosos. Quando um personagem opta pelo caminho mais árduo, legitima a possibilidade de fazermos o mesmo, ainda que em escala modesta. A ficção opera, assim, como exercício pedagógico de responsabilidade.
Há, contudo, uma dimensão coletiva. Gotham não é mero cenário, mas metáfora de sociedades marcadas por desigualdade e indiferença. A decisão de não matar constitui gesto público, dirigido à cidade inteira; de modo análogo, nossas escolhas cotidianas, preservar a dignidade alheia, recusar a humilhação, acreditar na reabilitação, modelam o espaço comum. A justiça, sugere a narrativa, realiza-se menos por espetáculos do que por persistência.
Lidar com as imperfeições humanas implica aceitá-las como matéria e não como destino. Os super-heróis recordam que a identidade é processo; e que, ao escolher proteger em vez de destruir, mesmo retornando ao mesmo trauma, Batman indica uma grandeza possível ao homem comum. Não a ausência de falhas, mas a recusa de ser governado por elas, lição que faz da fantasia um instrumento de formação moral.
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