Crítica | Pulp, por Ed Brubaker & Sean Phillips

 

Arte por Sean Phillips

Ficha Técnica:


Roteiro: Ed Brubaker

Arte: Sean Phillips

Distribuição: Editora Mino

Gênero: Crime

Idioma: Português

Classificação Indicativa: +16


Ed Brubaker — aquele mesmo que reinventou Bucky Barnes sob o manto do Soldado Invernal em suas passagens nos quadrinhos do Capitão América  — tornou-se carne e unha com o ilustrador Sean Phillips ao consolidar junto dele uma das colaborações mais sólidas e instintivas dos quadrinhos contemporâneos, moldando um corpo de obras que transita pelo gênero criminal com naturalidade quase ritual. Foi na Image Comics, já em terreno próprio, que Brubaker pôde enfim destilar seu olhar — esse híbrido entre a dureza noir e a cadência do quadrinho americano —, agora sem as amarras industriais, apenas o desejo de contar o crime como ele vê: humano, sujo e inevitável.


E Brubaker o faz muito bem aqui em Pulp — uma narrativa fechada, distinta do universo de Criminal, iniciado sob o selo Icon da Marvel e posteriormente continuado na Image. Em um país onde a serialização reina, a escolha por uma obra autossuficiente soa quase como um manifesto. Ao lado de Sean Phillips, Brubaker busca aqui algo mais coeso e contido: uma experiência cinematográfica condensada em papel, que respira sozinha, sem precisar do amparo de continuações. Pulp existe como um corpo isolado, um pequeno universo à parte daquele que o autor erigiu após deixar os domínios da Marvel — e talvez por isso mesmo, o mais pessoal de todos.


Arte por Sean Phillips


Mais pessoal porque, em Pulp, é impossível não enxergar Brubaker projetando sobre a página suas próprias cicatrizes de artista. Do escritor que deixou a Marvel após receber, em troca de sua contribuição monumental, uma carta protocolar de agradecimento e alguns ingressos para Capitão América: O Soldado Invernal (2014) — gesto simbólico de uma indústria que lucra bilhões enquanto reduz seus criadores à nota de rodapé —, e que, desde então, não poupou nem a Disney nem a própria Marvel de suas críticas públicas. Max Winter, seu protagonista, é um escritor americano anacrônico, sobrevivente do colapso do Velho Oeste — outrora pistoleiro e ladrão de bancos, agora um velho exaurido tentando resistir à sombra crescente do fascismo nos Estados Unidos, em sincronia com o avanço do Terceiro Reich do outro lado do Atlântico. Há algo de autobiográfico nessa amargura: Max carrega o mesmo desencanto que Brubaker parece nutrir diante de um mundo que lhe virou as costas, preso entre o vício e as dívidas, testemunhando o esvaziamento de um ideal. Quando o ataque cardíaco surge, restando-lhe pouco tempo, a tragédia já não é apenas física — é o colapso simbólico de um homem (ou de um autor) que percebe ter vivido o bastante para ver a imagem do seu próprio mito ruir.


Arte por Sean Phillips


Jeremiah Goldman, antigo inimigo de Max e ex-agente da Agência Pinkerton — reconhecida por muitos jogadores de Red Dead Redemption 2 —, descobre o paradeiro do velho pistoleiro e lhe propõe assaltar o banco do partido nazista norte-americano. Sem alternativas, temendo deixar sua mulher com nada além de dívidas, Max aceita. A partir daí, será obrigado a unir forças com o próprio inimigo e retornar às raízes de assaltante de bancos, agora para roubar os mesmos extremistas que simbolizam o mundo que o derrotou.


Arte por Sean Phillips


E é nessa linha tênue entre o passado revisitado e o presente corroído que Brubaker estrutura o assalto de Max e Goldman — um gesto de retorno e expiação em igual medida. Pulp, a despeito do formato enxuto, carrega o peso de algo que poderia ser maior, tamanho o calibre de sua execução, mas encontra justamente na concisão a força que sustenta sua forma. A parceria com Sean Phillips mantém-se precisa: cada quadro respira o mesmo senso de urgência e melancolia que move o roteiro. Para quem busca uma narrativa autoral, de crime e assalto a bancos, breve o suficiente para caber no ritmo apressado da rotina, Pulp se impõe como escolha natural. No Brasil, a edição da Mino preserva o cuidado e o acabamento que a obra exige, reunindo ao catálogo nacional mais um fragmento da sólida trajetória de Brubaker e Phillips na Image Comics.


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Nota: 9.0 / 10.0

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