Crítica | "Nomadland" transita pelo deserto, mas recua ao enfrentar o problema



O favorito do Oscar 2021 é fruto de um cinema autoral para uma Hollywood que precisa de novas visões e representatividade.

“Nomadland” é um filme baseado no livro “Nomadland: Surving America in the Twenty-First Century” de Jessica Bruder, que fala sobre o estilo de vida dos nômades modernos que vivem pelos Estados Unidos se deslocando periodicamente. Frances McDormand e Peter Spears obtiveram os direitos da obra e convidaram a diretora chinesa Chloé Zhao para roteirizar e dirigir o longa. Ela também ficou responsável pela edição, o que resultou em uma obra muito autoral com riqueza de detalhes das intenções formais de Zhao. É nesse cenário que conhecemos Fern (Frances McDormand) e embarcamos em sua van para uma jornada sem rumo aparente.

Após perder o emprego e o marido, Fern, uma moradora de meia-idade da comunidade de Empire em Nevada, decide vender o que pode e fazer da sua van seu lar por onde roda o interior dos EUA. Nessa jornada vemos como é o estilo de vida dos nômades contemporâneos que são pessoas fora do modelo do cidadão ocidental típico e estão na contramão da sociedade de consumo, seja por opção, crise financeira, escapismo ou todas opções, sendo assim, o filme representa que existe uma pluralidade dentro desse nicho. O background da protagonista está atrelada à crise de 2008 que afetou sua estabilidade financeira, que aliada ao luto pela morte de seu cônjuge teve como resultado uma fuga para a estrada. Esse período vivido pela personagem é contemplado pela frieza e austeridade da câmera de Zhao, vemos ela se adaptando à nova vida, enfrentando trabalhos sazonais, julgamento familiar, sua própria dor, mas acima de tudo, conhecendo várias pessoas com histórias diferentes.



Fern é uma personagem dura, fechada e pragmática, palavras não são suas primeiras escolhas, mas é uma excelente ouvinte. Essa faceta que induz a criação de subcamadas tão subjetivas poderia ser totalmente monótona, mas Frances McDormand consegue transmitir a rigidez e a abertura necessária. Além disso, Zhao optou por não utilizar atores profissionais para interpretar os nômades, sendo assim, o que vemos em tela são pessoas reais interpretando a si mesmos com uma narrativa criada pela diretora.

Na minha visão, Frances é uma das poucas grandes atrizes de Hollywood que consegue executar tão brilhantemente essa ponte entre esse cast não profissional de forma tão natural, e, consequentemente, valorizando a intenção do longa em misturar a ficção e o documentário. Outra aliada para manter essa unidade estilística é a fotografia de Joshua James Richards, que aproveita a luz natural e as paisagens desérticas para criar planos que refletem tanto a frieza quanto a humanização da personagem, e quando são montados por Chloé emitem uma energia onírica para a trajetória.



Contudo, o filme perde sua força ao tangenciar sua crítica ao modelo econômico vigente que causa esse efeito do nomadismo. Existe a premissa de que o capitalismo falhou, vemos isso com as perdas materiais de Fern, os empregos sazonais precários disponibilizados pela Amazon e com uma breve discussão que ocorre quando a protagonista encontra a irmã e a família dela. Parece que Zhao se encontra um pouco receosa em aprofundar essas questões, permanecendo muito mais na superfície e optando por uma construção mais convencional baseado no drama de sua recém-nômade. Isso não seria um ponto ruim, caso a diretora não tivesse um estilo mais voltado para o não-convencional, criando um caráter artificial para o sentimento contemplativo e cru que ela pretende apresentar. Esse equilíbrio entre o aprofundamento característico do cinema independente e a convenção de um modelo mais hollywoodiano não encontra um espaço apropriado para discutir as questões levantadas no começo e acaba não desmistificando essa pseudoliberdade que é tão romantizada pelo próprio sistema que não atende às demandas de sua população.

Por fim, temos uma personagem que busca na estrada uma certa redenção para sua dor, mas o seu passado é sempre uma questão. É interessante como os núcleos passageiros com os não-atores e suas respectivas vivências transformam Fern, como Swankie que possui um câncer terminal, mas decidiu que não passaria o resto da sua vida endividada em um hospital, então segundo a mesma, ela decidiu viver. No fim, Fern toma a mesma decisão e deixa o passado para trás e vai de encontro à estrada. Em termos técnicos, o longa fecha impecavelmente, mas passa uma mensagem turva sobre até onde a estrada é uma escolha ou o único lugar possível.

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1 Comentários

  1. Concordo demais com a crítica, faz a gente pensar muito sobre o que é o livre arbítrio de verdade, adorei, muito bem escrito

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