Crítica│Enola Holmes



Caso esteja querendo assistir a este filme pensando que é mais uma das grandes aventuras de Sherlock Holmes, pare agora. Enola Holmes pode até fazer parte da excêntrica família do mais famoso detetive de Londres, mas ela possui sua própria história. Dirigido por Harry Bradbeer (Fleabag), a adaptação conta com um elenco de peso e a atenção que o nome Holmes atrai para qualquer obra. Estreando no catálogo da Netflix nesta quarta (23), Enola Homes é um filme cheio de aventura, importantes debates e diversão.

Enola Holmes, interpretada por Millie Bobby Brown, a Eleven de Stranger Things, é irmã mais nova de ninguém mais ninguém menos que Sherlock e Mycroft Holmes. Ela mora com sua mãe, interpretada por Helena Bonham Carter, em uma casa no interior, onde ambas se divertem fazendo experimentos, lendo, montando caça palavras, praticando esportes ou fazendo qualquer outro tipo de atividade que seja possível. Até que um dia, na manhã do 16° aniversário de Enola, a casa está vazia e sua mãe desaparecida. A garota então, embarca em uma aventura para encontrá-la, enquanto tenta despistar seus dois irmãos mais velhos.



A relação entre Enola e a mãe é o primeiro contato que o espectador tem com a personagem e será o estopim para a história da garota. A sintonia entre Millie Bobby Brown e Helena Bonham - a Bellatrix de Harry Potter - é imediata e o carisma das duas juntas ajuda a construir uma relação maternal natural entre elas, adicionando um peso emocional necessário à trama. O relacionamento delas é também uma maneira da narrativa transmitir a importância de uma figura de empoderamento feminino na vida de uma criança, seja uma mãe ou alguém que a pessoa admire.

Outro ponto forte que a escalação e dinâmica do elenco proporciona ao público são os irmãos Holmes. Sam Claflin incorpora tão bem Mycroft que aqueles que o conhecem por interpretar personagens mais simpáticos, como o Finnick Odair de Jogos Vorazes, terão dificuldade em reconhecê-lo. Já Sherlock Holmes está surpreendentemente bem representado por Henry Cavill, o Superman dos cinemas. Os fã dos livros originais terão mais facilidade em aceitar o personagem de Cavill do que aqueles acostumados com a versão de Benedict Cumberbatch ou de Robert Downey Jr. Ele consegue trazer à tela um Sherlock mais soturno, mas ainda sim excêntrico, que lembra bastante a versão literária do personagem escrito em 1887 por Sir Arthur Conan Doyle.



No primeiro minuto em cena juntos os três atores estabelecem uma boa dinâmica entre os irmãos Holmes. Mesmo o espectador que nunca teve contato com a obra original ou as outras versões dos personagens será capaz de entender a relação de implicância entre Mycroft e Sherlock ou a admiração de Enola pelo irmão detetive imediatamente. No entanto, há uma distância emocional entre os três irmãos, enquanto Sherlock é apático com relação à irmã mais nova, Mycroft a vê como um ser selvagem e indomável.

Essa relação entre eles é desenvolvida e impulsionada com o decorrer da trama, levando Enola a constantemente se pôr a prova para fugir deles e continuar sua busca. É também com a presença dos irmãos Holmes mais velhos que o principal tema do longa é abordado: o feminismo. A trama se passa no século XIX, época na qual as mulheres não possuíam voz na sociedade e estavam lutando por seus direitos. O que proporciona, ao longo da narrativa, diversos diálogos importantes para serem discutidos na realidade, mas sem nunca perder o tom leve de um filme juvenil.

O tom juvenil do longa é construído pela narrativa de autodescobrimento própria da personagem principal, estabelecida desde antes da adaptação, na série de livros escritos por Nancy Springer. Enola Holmes não é só uma história de mistérios a serem solucionados ou a jornada de amadurecimento de uma garota descobrindo o mundo, é ambos; tudo isso misturado ao toque aventureiro da família Holmes. O longa possui um ritmo rápido e bem construído, o roteiro é conciso e promove vários encontros e interações divertidas entre Enola e os novos personagens que são introduzidos à trama com o passar do tempo.



A quebra da quarta parede - técnica na qual o personagem fala diretamente com a câmera - funciona dentro da narrativa carismática e energética do filme. Esse recurso, contanto, pode agradar alguns, mas não outros, é uma questão de costume e aceitação do próprio espectador. A trilha sonora, feita por Daniel Pemberton, é outro ponto positivo da trama. Ela utiliza tons comuns às obras clássicas de Sherlock Holmes ao mesmo tempo que se inova ao basear-se na excêntrica e divertida personalidade de Enola.

Enola Holmes não é uma trama inovadora, ela utiliza de várias narrativas há muito comum ao ramo cinematográfico e pode não agradar tanto aos fãs mais antiquados de Sherlock Holmes. É o típico filme para preparar uma pipoca, sentar no sofá e passar uma tarde agradável de domingo. Contudo, é também uma história cativante, com bons personagens, um bom enredo e um elenco brilhante que, se você der uma chance e abrir o coração, poderá te surpreender.

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