Fatos e Curiosidades: Fanfictions


Olá, leitores da Revista Jovem Geek, como estão?

Cá estou trazendo mais um Fatos e Curiosidades, nosso Episode 2 dessa vez é de um tema que muitos conhecem e já ouviram falar, mas não conhecem tão a fundo as suas origens, que datam desde bem antes da internet. Falaremos hoje sobre as fanfictions.

E a escolha do tema também é em virtude de no próximo dia 25 ser o Dia do Escritor e muitos escritores começaram suas carreiras com fanfictions, vocês vão ver ao longo da matéria. E muita coisa - para não dizer tudo - está sendo tirada do meu próprio TCC da faculdade, pois usei como tema.

Bora lá!

Definição

A origem deste nome é pela junção de duas palavras de língua inglesa: Fan (fã) e Fiction (ficção), que em uma tradução livre fica algo como Ficção Escrita por Fãs.

Mas o que faz uma Fanfic - apelido carinhoso - ser uma fanfic?

O universo da fanfics e também de seus escritores se baseia no fato do “E se?” - que é, inclusive o nome de outra sessão especial do site. Elas são sempre baseadas em alguma obra/coisa já existente, seja ela filme, livro, série, desenho ou até banda.

Trabalhando hipóteses, especulações ou só mudando aquele fato no original que não agradou tanto assim.

As fanfictions são feitas apenas para o divertimento e entretenimento dos fãs, sempre com mais vontade de consumir sobre aquele conteúdo. Tudo feito de fã para fã mesmo! Mas, não significa que não haja dedicação, tanto para quem escreve e para quem lê.


Alguns termos

Dentro do universo fanfiqueiro existem muitos termos que são usados para definir os gêneros e todos os conteúdos presentes em cada uma delas. Vou listar alguns dos mais importantes e comuns.

UA ou AU (em inglês): Universo alternativo, quando a história se passa em outro mundo que não o canônico, como por exemplo colocar os personagens para estudar em uma escola comum; 

Ship: abreviação de relationship – relacionamento, aquele casal que você “torce” para ficar junto;

OTP: Sigla de one true pairing – um casal verdadeiro, em tradução livre, aquele casal favorito ou que faz parte do universo canon;

Crossover: quando se mistura personagens e/ou universos de duas ou mais obras, fazendo realmente uma grande mistura que acaba sendo muito divertida;

Mary Sue/Gary Stu: Tipos de personagens idealizados, – sendo o primeiro nome para as femininas e o segundo, masculinos – perfeitos, não tem defeitos, são bons em tudo o que fazem. Maioria das vezes são vistos com algum problema grave de uma fanfiction e até um espécie de clichê;

Slash/Yaoi: são as histórias com temática homoafetiva. O primeiro nome vendo do inglês barra, já o segundo, termo japonês de designa mangás e animes com essa temática.

E até o tamanho das histórias acaba tendo um nome próprio.

Oneshot: Fic de apenas um capítulo. Um tiro, em tradução livre - com tudo contado de uma só vez e de maneira rápida. Semelhante a conto.

ShortFic: Fic curta, com no máximo dez capítulos. Sendo que cada capítulo tem, no máximo, três mil palavras.

LongFic: Fic longa. Diversos capítulos, sem limites de palavras. Algumas podem até ter continuação, que alguns chamam de segundo temporada. Semelhante a saga, série.

Drabble: Fic com até cem palavras. Objetivando a brevidade e capacidade dos autores em expressarem suas ideias em poucas palavras.

Double Drabble: Fic com até duzentas palavras. Double – dobro em inglês, ou seja, o dobro de cem: duzentos.

Fanfics bem antes da internet

Quando se pensa em Fanfic, pensamos logo que é uma coisa mais recente e que surgiu com a explosão da internet, tornando seu acesso fácil e comum. Bom, por parte, isso é verdade! A popularização das fanfics se deu justamente por causa da internet, porém elas surgiram bem antes - pelo menos na forma como a conhecemos e entendemos hoje.

Uma coisa é fato, desde que mundo é mundo, existem leitores insatisfeitos ou ansiosos, principalmente com livros.

Uma das primeiras fanfics foi uma “continuação” de Dom Quixote, que foi publicada - sim, publicada - pelo pseudônimo de Alonso Fernández de Avellaneda. A versão chegou a ser comercializada como a continuação oficial, porém o próprio Miguel de Cervantes - autor do original - ao escrever a real continuação zombou deste “Falso Quixote”.

Outro caso aconteceu com o livro Clarissa de Samuel Richardson. Uma leitora chamada Belfour trocou cartas com o autor por um certo tempo e em várias delas se mostrava insatisfeita com os rumos da história e chegou ao ponto de ameaçar o escritor caso não escrevesse o final do jeito que ela queria. No final de tudo, a leitora ainda insatisfeita, tratou de fazer um livro com o final que queria.

Até Sherlock Holmes teve suas fanfics ainda na época que Arthur Conan Doyle publicava as obras. Ele chegou a matar o detetive, porém a comoção com o acontecimento foi tão grande que gerou uma quantidade grande de paródias e peças com o personagem. O autor acabou trazendo-o de volta. Inclusive, vários contos da série foram publicados na revista The Strand e muito do que o Arthur escreveu para a revista acabou sendo inspirado pelas histórias que os próprios leitores enviavam para ele. Acabava usando as melhores ideias e claro, dava os direitos autorais a seu criador.

Apesar de todas as histórias citadas aqui, nenhuma delas recebia o nome de Fanfictions, à época o termo sequer existia, eram usados outros nomes como adaptação, inspiração, homenagem, tudo isso a fim de evitar possíveis problemas com direitos autorais.

Zines, Fanfics e Internet

Por muito tempo as produções de fãs seguiram uma linha mais caseira, com os fãs fazendo cópias de suas histórias à mão. O fãs produziam estas revistas, ou melhor, estes zines e os trocavam entre si. Porém, eram de pequena circulação e ficavam presas ao círculo dos próprios fãs e suas histórias originais, a maioria deles de Ficção Científica.

Apenas nos anos 60, quando surgiu o seriado Star Trek, que realmente se popularizou toda esta cultura, quando a produção dos zines se voltou para a mídia. Um grande exemplo é o Spocknalia, que teve cinco edições e três anos de existência.

E nos anos 90 houve mais uma mudança no formato, seja de publicação e de interação entre os fãs, com o surgimento da computação pessoal - que ocorreu na década anterior - junto com a popularização da internet.

Começou com o compartilhamento digital delas, fosse por e-mail, ID’s e depois fanboards, trazendo também o benefício do anonimato para autores e leitores. Tornando assim a fanfic algo público.

Séries famosas daquela época - como Buffy, a caça vampiros, Twin Peaks e Arquivo X - trouxeram pessoas novas para esse universo, pessoas essas que só queriam ler e escrever no conforto e privacidade de casa.

Livros como Harry Potter e Crepúsculo também trouxeram uma legião de fãs para o universo das fanfics e até hoje são, com certeza, os que mais lotam os sites de fanfics, com infinitas histórias.

A explosão e popularização da internet foi o que fez as fanfics serem o que são hoje, da maneira como muitos de nós a conhecemos. As fanfics não são só um processo de escrita, mas também um hobby.

Atualmente, as fanfics são publicadas em sites específicos para isso, onde existe toda uma separação por fandom, casal e outras coisas. Alguns deles são: Fanfiction.net, Fanfic Obsession, AO3 (Archive of our own), Nyah! Fanfiction e Wattpad.



E o direito autoral? Como fica?

Com tudo sobre fanfic já definido, fica a pergunta: E o que acontece com o direito autoral?

Afinal, existem pessoas escrevendo e publicando histórias com personagens e universos que são propriedade intelectual do autor da obra.

Alguns dizem não haver nada ilegal, pois não há fim lucrativo na prática da fanfic. Já outros afirmam que há sim a quebra da propriedade intelectual e movem processos em busca de seus direitos.

Existe um limbo onde as fanfics podem habitar, pois não tem nenhum respaldo de lei sobre isso, apenas sobre a citação direta ou parcial da obra. A produção derivada não é prevista na lei, então não tem proteção caso alguém precise.

Segundo Carlos Liguori, advogado da FGV e especialista em Direito Digital e Propriedade Intelectual: “Muitas pessoas afirmam que a fanfic é uma citação ou reprodução parcial por causa de personagens, o que não é. (...) O personagem não é um trecho de uma história, ele é um elemento”.

Ou seja, existe uma área cinzenta onde as fanfics e seus autores acabam habitando.

Autores que apoiam (ou não) as fanfics

Alguns autores famosos já demonstraram seu apoio as fanfics, justamente porque alguns deles vieram desse universo - que citaremos mais a frente. Porém, alguns autores consagrados condenam e não aceitam a prática. Como George R.R. Martin - autor de Crônicas de Gelo e Fogo - e Anne Rice - autora de Entrevista com o Vampiro - que chegou ao ponto de fazer uma declaração oficial em seu site.

Aqui estão as suas declarações na íntegra sobre:

Consentimento, para mim, é o ponto principal desta questão. Se um escritor quer permitir ou até mesmo incentivar outras pessoas a utilizar os seus mundos e personagens, tudo bem. Sua vontade. Se um escritor prefere não permitir... Bem, eu acho que os seus desejos devem ser respeitados. (...)

Meus personagens são meus filhos. Eu não quero que as pessoas mexam com eles, obrigado. Até mesmo as pessoas que dizem que amam meus filhos. Tenho certeza de que amam, não duvido disso, mas mesmo assim... George R. R. Martin


Eu não autorizo fanfiction. Os personagens são protegidos por lei (copyright). Me chateia terrivelmente só de pensar em fanfictions com meus personagens. Eu aconselho meus leitores a escrever suas próprias estórias com seus próprios personagens. É absolutamente essencial que vocês respeitem meus desejos. Anne Rice


Autores que vieram de Fanfics

Há casos de autores internacionais que começaram escrevendo fanfics, como Meg Cabot – autora de “O diário da Princesa”, que escrevia fanfics de Star Wars; E.L. James – autora de “Cinquenta tons de cinza”, que era uma fanfic de Crepúsculo; Cassandra Clare – autora de “Os instrumentos mortais” e “Shadowhunters”, que já explorava o gênero fantástico nas fanfictions de Harry Potter e Senhor dos Anéis; e Anna Todd – autora da série “After”, que era uma fanfic de One Direction postada no Wattpad, sendo que foi a primeira obra a alcançar um bilhão de leituras na plataforma.

Mas e os autores brasileiros? Começar através das fanfics não é uma exclusividade internacional. Aqui no Brasil temos autoras como Babi Dewet - autora de “Sábado à noite”, originalmente uma fanfic de McFly; Natália Marques – autora de “A infiltrada”, que era do fandom de Crepúsculo; Jane Herman – autora de “Entre a Nobreza e o Crime”, também fanfic de Crepúsculo; e Andie Prado – autora de “Insanatório”, que se tratava de uma fanfic interativa.



Um universo feminino (e com alguns preconceitos)

Existe um certo estigma com as fanfics, seja preconceito de quem vê de fora e não conhece ou até porque se considera algo infantil ou até de pessoas mais jovens. Mas, creio que a parte do preconceito acaba envolvendo o fato de maior parte do público também ser feminino. Não precisa de muito para perceber que a maioria das consumidoras e criadoras de fanfics são as mulheres, é só dar uma olhada nos próprios sites de fanfics e nos grupos em outras redes sociais.

Não significa que não existam meninos, eles existem sim, mas em minoria apenas. As fanfics são um universo feminino, talvez o anonimato ajude nisso, não tem como saber. É um ambiente livre, onde cada pessoa pode dar liberdade a sua imaginação, até em fanfics eróticas ou com temáticas mais pesadas.

E como visto antes, algumas alcançam níveis que vão além dos sites de fanfics e se tornam livros que conhecemos e depois viraram filmes. E a maior parte dessas obras basicamente se tratam de histórias eróticas ou clichês até. E por isso que quem não tem familiaridade com o universo acaba enxergando como um local onde só existem aqueles tipos de história com qualidade bastante questionável. Mas, isso não é verdade!

Dentro de todo o mar de fanfics existem histórias para todos os gostos e públicos. As histórias que transpõem o universo são apenas alguns exemplos.
Bem, pessoal, é isso! Gostaram de conhecer mais sobre as fanfics?

Eu não falei tanto sobre os fandoms e foquei mais no histórico, pois essa parte nem todos conhecem.

E já deixo adiantado o meu parabéns a todos os escritores (e FicWriters) pelo seu dia!

Até a próxima!

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