Crítica | The Last of Us - Part II


Longos dias e belas noites, geeks

Sete anos pós o lançamento do primeiro jogo, a Naughty Dog trouxe, no dia 19 de Junho, a continuação The Last of Us - Part II. O jogo, exclusivo da Sony para Playstation, continua contando a história de Joel (Troy Baker) e Ellie (Ashley Johnson), cinco anos após os eventos do primeiro jogo. Dirigido por Neil Druckman e roteirizado pelo próprio Druckman com Halley Gross, a composição das músicas ficou novamente a cargo do argentino Gustavo Santaolalla.


Quanto a história, temos um Joel mais velho e mais madura convivendo com Ellie, ainda exercendo seu papel de protetor, que nunca deixou de enxergar a menina forte, mas ainda vulnerável, de 14 anos com quem atravessou metade do país, agora já com 19 anos. Ambos convivem em uma comunidade em Jackson que divide tarefas e funções diárias. Com suas rotinas e afazeres, os dois seguem uma rotina que poderia ser considerada tranquila, até que um grupo interfere, mudando o rumo do mundo que conheciam. No jogo, assumimos o controle de Ellie e Abby (personagem do grupo), cada uma seguindo um objetivo próprio e demonstrando uma disposição descomunal para atingi-lo, ainda que o de cada uma vá na exata direção oposta da outra.


A jogabilidade teve um melhoramento significativo. Apesar de manter a essência de movimentação e mecânica dos jogos de terceira pessoa, já utilizada no primeiro jogo, temos mais opções como: apertar L1 para desviar de projéteis e ataques diretos - por infectados ou humanos, novos tipos de melhoramentos de armas e de personagem, a possibilidade de nos agacharmos e até nos escondermos em pequenos lagos ou embaixo de carros, adição de arco e flecha/besta como nova arma furtiva e um combate mais fluido e com mais opções. Além dos infectados já conhecidos:  corredores, espreitadores, estaladores e baiacus, há também a adição de uma nova classe: os trôpegos. Esse grupo irá pulverizar ácido gasoso, que é inflamável em contato com a pele, causando dano contínuo na área e não podendo ser atacado de forma furtiva. Os humanos também possuem melhorias em suas mecânicas, com a divisão principal entre dois grupos rivais: os lobos (grupo no qual Abby faz parte), divididos de forma muito similar aos "extintos" vaga-lumes; e os serafitas, grupo religioso com rituais próprios, além de um estilo de vida que poderia ser considerado "conservador e retrógrado".

Corredor, Espreitador, Estalador, Trôpego e Baiacu

Algo interessante é a inteligência artificial dos NPCs, pois constantemente eles chamam uns aos outros durante encontros e começam ao ficar preocupados ao não ouvirem alguém responder, também podem ter acessos de fúria ao verem determinados companheiros mortos. As mortes também estão mais viscerais: é possível ver pedaços de cérebro contra paredes e ver um personagem agonizando de dor ao perder uma perna com um tiro de escopeta. Ao comparar o sistema atual com o sistema apresentado no primeiro jogo, as melhorias são notáveis e significativas, podemos dizer a mesma coisa para os gráficos.

O enrendo ainda consegue ser o mais cativante da série, possuindo uma estrutura sólida de apresentação do universo e dos personagens, desenvolvimento do arco dramático de cada um e encerramento da trama pessoal. Temos arcos complexos e com um peso muito grande, não se assuste se você se encontrar chorando ao acompanhar a trama. A trilha sonora também vem como uma adição poderosa, trazendo uma ambientação a ser considerada um pouco western, mas com uma grande pegada folk. Falando sobre a música, o sistema para tocar violão é algo totalmente inovador e com vários players fazendo cover de músicas famosas. Também temos uma violência gráfica explícita e que justifica a classificação indicativa, M - Mature 17+. Um belo exemplo seria o segundo trailer com uma cutscene do jogo, apresentada no segundo trailer de exibição:



Há certas controvérsias quanto ao final do jogo, mas de uma forma a não dar spoilers, acho que souberam encerrar de forma dramática e espetacular. Temos o que cada personagem busca e precisa extremamente descriminados, é possível enxergar, ao final, que a busca pessoal não reflete a necessidade pessoal de cada uma, além de vermos as consequências pelas escolhas e as perdas que elas trazem (sejam elas físicas, emocionais e de relacionamentos). Eu achei um bom encerramento, melhor ainda por não deixar para o jogador decidir o que fazer ao final, ele é apenas um expectador nas decisões das personagens, que já tem sua construção e seu desenvolvimento decididos.


Poucas obras artísticas, em seus mais diversos campos, conseguem carregar em si uma carga emocional forte o suficiente para despertar um sentimento, tão incisivo e convincente, em quem as consome, para nossa sorte, The Last of Us - Part II realiza tal ato com maestria. O jogo consegue envolver o jogador de uma forma tão profunda, que facilmente ele encontra-se enlaçado nas tramas pessoais dos personagens, chorando ou sentindo ódio junto aos protagonistas. Todo o enredo trabalha para criar essa empatia comovente. Ele sabe quais elementos usar e como usá-los para que estejamos tão envoltos nesse clima que seja necessário um tempo para processar tudo que se descortina na tela a nossa a frente. Como experiência pessoal, o primeiro jogo me mostrou uma nova dimensão sobre o sentimento e a figura que a paternidade exerce; já o segundo, mostrou-se um poderoso meio para incutir novas reflexões a cerca do limite que devemos ir para atingir nossos objetivos.


De modo geral, o jogo sabe conduzir muito bem todos os elementos necessários para ser considerado uma obra prima. Particularmente, não encontrei nada que deixasse a desejar alguma modificação. Ele consegue falar no particular de cada um, ainda que o desfecho possa não ter agradado a todos, até para aqueles que ficaram infelizes com o final, o decorrer da jornada foi incrível e, experienciar a história que o jogo nos propõe, é sem dúvida alguma uma experiência única e imersiva! Um jogo que, com certeza, deve ser jogado por todos.

Nota: 10 / 10


Alerta para spoilers abaixo!

Alguns acreditam que o encerramento do game poderia ser antecedido no primeiro embate de Ellie e Abby, mas o fato do jogo prosseguir e vermos que Ellie teve a chance de deixar de lado tudo que houve para seguir com a sua vida, mas preferir buscar paz ao concluir sua vingança, deu uma nova dimensão para o encerramento apresentado, reforçando a ideia de que aquilo que a personagem deseja, não trará o que ela precisa, algo que Abby já havia aprendido antes. Às vezes, o preço a se pagar é alto de mais. Abby abriu mão de Owen e uma outra realidade para si, ao passo que Ellie perdeu as duas pessoas mais importantes de sua vida e dois dedos, o que vai lhe custar a capacidade de tocar violão. E não posso encerrar a matéria sem a triste confissão: chorei de secar lágrimas do rosto com a morte do Joel. O sentimento de impotência, diante da situação com um personagem que já tínhamos um grande carisma, foi demais para o meu psicológico.

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