Entrevista com Ithalo Furtado: um café, uma boa playlist e livros...


Nascido em 03 de junho de 1985, Ithalo Furtado é escritor com três livros publicados e um quarto projeto “no forno”, além de ser também, cantor e compositor. Parnaibano, nascido e criado no litoral do Piauí, o escritor conquistou o país com suas obras e seu carisma.
(foto: Adriano Carvalho)

No instagram, pode ser localizado em seu perfil @ithalofurtado e os perfis de seus projetos atuais @escutohistoriasescrevopoemas , @carnavalhame e @fabricadedesajustados .

Nessa quinta-feira (27/02) ele nos contou um pouco sobre ele e a vida de escritor, confira:

(foto: Isabela Quebradas)


Em que hora do dia você sente que trabalha melhor? Você tem algum ritual de preparação para a escrita?

Ithalo Furtado: com certeza, de madrugada, às vezes no início antes do sono, outras no final, ao acordar. E acho que o ritual vem das coisas mais próximas do meu dia a dia: um café, um carinho nas cachorras, algumas breves e fractais leituras, minha playlist que tem de Nick Cave a Dolores Duran.

Como você lida com as travas da escrita como a procrastinação, o medo de não corresponder às expectativas e a ansiedade de trabalhar em projetos longos?

Ithalo Furtado: a questão de corresponder é muito subjetiva, comecei contra toda a lógica de produção aqui na cidade e fui ganhando público num lugar que pouco valoriza o artista local, então aprendi a confiar no que planejo sem ter como norte a expectativa do público que é muito ligada ao fator emocional. Eu preciso equilibrar cérebro e coração, entende? É uma equação que nunca fecha se eu considerar o dois lados, portanto, deixo a ferida ir abrindo mesmo. Com relação à procrastinação, pra mim ela é necessária. Não sou disciplinado, eu preciso dar um foda-se pro meu texto por um tempo.

Quantas vezes você revisa seus textos antes de sentir que eles estão prontos? Você mostra seus trabalhos para outras pessoas antes de publicá-los?

Ithalo Furtado: no início eu escrevia sob completa emoção. Sequer sabia que técnica eu utilizava. "Uma pedra em cada por enquanto" (seu primeiro livro), é isso, quase um vômito, sempre comparo ele a uma demo de uma banda punk, com tipografia exagerada, erros de digitação e um público que o adora mais que eu o adoro. Com o tempo, principalmente no processo do "Móveis empoeirados no peito" e após fazer várias oficinas literárias e trocar com muitos autores, fui descobrindo minha técnica a partir de outras técnicas, passei a ter mais cuidado com o texto, mais critério e a só enviar pra pessoas que iriam criticar quando achassem necessário. Eu nunca mando textos com fins de avaliação para amigos que irão reprimir qualquer crítica.

O que você acha que mudou no seu processo de escrita ao longo dos anos? O que você diria a si mesmo se pudesse voltar aos seus primeiros escritos?

Ithalo Furtado: mudou minha relação com o texto, hoje valorizo seu artesanato, sua costura, procuro criar camadas, deixá-lo mais coloquial e trabalhar seus climas, seus silêncios, suas esquinas. Hoje tento entender toda a situação que envolve o narrador, o que ele está fazendo, de onde veio e pra onde vai depois. E se eu pudesse falar algo pro Ithalo de 6 anos de idade, seria "obrigado".

Como você se mantém inspirado? Você tem um grupo particular de autores a quem sempre torna a ler?

Ithalo Furtado: inspiração não me move, o que me move é a observação, a absorção das coisas. O que as pessoas chamam de inspiração é um caminho limitante. É impossível produzir toda uma obra por mera inspiração. Gabriel Garcia Marquez jamais teria criado toda a linhagem dos buendía somente por lapsos de epifania. Eu me atenho mesmo é na capacidade de síntese do que o mundo me apresenta, vejo um velho lendo jornal e produzo uma crônica de seus gestos pequenos, do movimento desconcertado das páginas, da indiferença das pessoas em volta, entende? Ah, e sobre os autores que volto a ler, cito: Albert Camus, Clarice Lispector, Drummond, Leminski, Rimbaud, Thomas Pynchon, David Foster Wallace, Ana Cristina César, Torquato Neto, Fernando Pessoa, Wislawa Symborska e Matilde Campilho também.

Eles te influenciam ?

Ithalo Furtado: bastante.

Você sente que a escrita fica mais fácil à medida que envelhece?

Ithalo Furtado: não, fica mais difícil porque a juventude é lúdica demais pra permitir a compreensão total da realidade. Quando passamos dos 30, entendemos que há coisas mais complexas que a revolução que propomos quando jovens. É mais duro escrever aos 40, aos 50 e quase heroico após os 60.

O que foi determinante para que você se tornasse um escritor?

Ithalo Furtado: não teve um fator determinante, foi um processo. Pouca gente sabe que tenho pouca visão no olho direito e quase tudo que enxergo se concentra no esquerdo. Isso se chama anisometropia, uma disfunção binocular. Quando criança, por não enxergar nada no quadro, eu inventava minhas histórias no caderno pra fingir que estava anotando. Então aprendi a observar as coisas mais de perto por necessidade. Posso dizer que foi minha limitação ocular que me fez, paradoxalmente, ser um grande observador de tudo.

Que conselhos você daria a um jovem escritor?

Ithalo Furtado: não adianta nada ler bastante, fazer oficinas, ter uma boa técnica se você não viver a loucura da rua todos os dias: o mercado, os bares, as sarjetas, as igrejas, os lamaçais, as periferias, os comércios, os inacessos, os becos, as criaturas da noite. Largue os livros e vá pra rua.

Você imagina um leitor ideal para seus livros? Como o descreveria?

Ithalo Furtado: nem imagino isso de forma exata, mas leitores de auto ajuda costumam odiar os meus livros, sempre me acusam de trágico, niilista e tantas outras coisas que vão na contramão do "vai dar tudo certo no final".

De seus livros publicados, qual o seu favorito? Por que?

Ithalo Furtado: "Móveis empoeirados no peito", com certeza. Trabalhei bastante nele e não só porque foi muito bem recebido pela crítica lá fora, mas porque nele eu consegui sintetizar de forma mais consciente minha literatura tão fragmentada.

Qual o maior desafio em ser escritor atualmente no Brasil?

Ithalo Furtado: são tantos, mas o principal é superar a barreira dos amigos e se permitir ser criticado pelo mundo além das camadas confortáveis. Fora que chegar aos 80 anos escrevendo é um ato de heroísmo. Escrever com 18, 25 anos é muito mais fácil. Na arte, ou nos santificamos em seu inferno ou nos relegamos à mera vaidade

Como você descreveria seu último projeto, “Escuto histórias, escrevo poesias”?

Ithalo Furtado: difícil essa pergunta, eu tenho dificuldade em definir porque parece que estou encaixotando todo um processo que sempre ganha novas camadas à medida que vai sendo desenvolvido. Ainda mais ele que é feito em qualquer espaço com fluxo de pessoas, seja nas ruas, seja em locais fechados. Eu diria que o que proponho é uma volta à conexão real, olho no olho, tornando as pessoas, que se conectam comigo por meio das conversas, coautoras dos poemas que produzo através das historias que me contam.

Atualmente você ainda compõe? Tem algum novo projeto musical em vista?

Ithalo Furtado: eu componho todos os dias, praticamente. Anualmente, participo de festivais com minha parceira-amiga Aline Lessa, lá do Rio. De 2018 pra cá fomos finalistas dos principais festivais do país, ganhamos alguns e ficamos sempre entre os 5 nos outros. Nosso primeiro festival foi o FENAC, o maior do país, onde de 2.500 músicas ficamos entre as 24 do país inteiro. Foi em setembro de 2018, eu fui, foi mágico pra caralho. Vi minha música disputando com Dulce Quental, Nô Stopa e tanta, mas tanta gente foda. Enfim, música é minha vida. Atualmente estou com dois projetos, um autoral chamado Fábrica de Desajustados junto com o Nícollas Linhares, Matheus Mantra, Lívia Alves e Ítala Nayara e um especial em homenagem a Sérgio Sampaio também com o Nícollas e o Matheus, além da minha parceria firme e forte com a Aline.

Você poderia recomendar três livros aos seus leitores, destacando o que mais gosta em cada um deles?

Ithalo Furtado: 1 - O Estrangeiro, de Albert Camus - o livro que mudou minha cabeça quando eu era jovem;

2 - O arco-íris da gravidade, de Thomas Pynchon - o livro de mil linguagens, personagens e fusões de espectros do conhecimento;

3 - A teus pés, de Ana Cristina César - uma linda e feroz síntese do que é fazer poema.

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