Review: Murdered: Soul Suspect (XONE) — Desvendando a própria morte

Imagem: Square Enix/Divulgação

Um thriller investigativo ambientado na sinistra cidade de Salém, combinando resolução de crimes com mistérios sobrenaturais.

Entre momentos de exploração e dedução, a trama de Murdered: Soul Suspect esbarra em poucos encontros perigosos até que chegue ao clímax final.


Ficha Técnica:

Desenvolvimento: Airtight Games

Distribuição: Square Enix

Jogadores: 1 (local)

Gênero: Ação e Aventura, Suspense, Puzzle.

Plataformas: Xbox 360, Xbox One, PlayStation 3, PlayStation 4 e Steam.

Idioma: Inglês+


Um Morto Investigando Mortes

Imagem: Square Enix/Divulgação

Interpretando um fantasma, é de se imaginar que Murdered: Soul Suspect não permita tantas interações com o cenário ou outros personagens. É possível atravessar paredes, possuir pessoas e gatos, assombrar objetos, remover obstáculos fantasmagóricos, se teletransportar e, principalmente, investigar pistas para recriar cenas de crimes. Durante a maior parte do tempo, o jogador estará apenas indo do ponto A ao ponto B, mas não senti que isso foi um problema. Só vagar por aí é o que eu poderia esperar se eu fosse um fantasma também, então de certa forma isso casa bem com a proposta do jogo.

A gameplay principal se concentra em decifrar cenas de crime analisando cenários, possuindo testemunhas para ler seus pensamentos, criando conexões entre uma pista e outra e, as vezes, interrogando os fantasmas das próprias vítimas. Esses elementos investigativos são muito interessantes, é o que mais movimenta a trama adiante, mas há um erro de design grave. Ao reunir provas suficientes, o jogador precisa selecionar as pistas principais para criar um flashback que conta o crime cometido naquele local. A tela exibe 3 tentativas para fazer a escolha certa, mas é só um blefe. Em algumas situações eu errei várias vezes seguidas, e o jogo apenas foi marcando em vermelho as opções erradas até que me restasse apenas a verdadeira resposta para o problema. Nunca é exigido a intuição investigativa do jogador, e toda a progressão pode ser feita usando um método de força bruta. Entendo que pode ser frustrante ter uma mecânica que interrompa de forma permanente o avanço na trama, mas porque blefar essa mecânica para início de conversa?

A única coisa que pode dar algum trabalho na exploração do jogador são os demônios. Essas entidades malignas podem devorar o espírito do protagonista, então devem ser evitadas por meio da furtividade. É possível exorcizar demônios se aproximando por trás deles sem ser visto. A inteligência deles é bem fraca. Exorcizar não requer habilidade e não há variações de demônios, todos se comportam exatamente igual. Quando um deles detectar sua presença, basta atravessar algumas paredes e se esconder por alguns segundos. Ele vai desistir de te procurar e retornar para sua posição original, onde ficará flutuando de um lado para o outro. Claramente não é o ponto forte do jogo, tanto que os demônios surgem raramente. Eu conclui 100% do que o jogo tem a oferecer, incluindo todo o conteúdo opcional, e ao longo dessa jornada enfrentei apenas 30 demônios. Mas eles são importantes para a história, então a presença deles é justificada.

Felizmente não houve nenhum bugs durante a jogatina, apenas um problema de sincronia nas legendas. As vezes apareciam atrasadas, ou então sumiam da tela antes da fala acabar. O jogo não foi traduzido para português, esse erro ocorre nas legendas originais em inglês, o que indica uma falta de revisão da equipe principal de desenvolvimento.


A Cidade Que Não Abandona o Passado

Imagem: Square Enix/Divulgação

Lançado em 2014, os gráficos do jogo são bons para a época. Mas o charme de Murdered não vem disso, e sim de sua ambientação sombria. Toda a trama se desenrola ao longo de uma única noite. A cidade de Salém pela perspectiva do protagonista morto combina o que é físico e real com detalhes de tragédias do passado. Por exemplo, há uma rua onde as casas estão queimando com chamas espectrais. Em uma das histórias secundárias, descobrimos que um morador de rua era sempre ignorado ao pedir dinheiro para as pessoas; cansado de ser invisível, ele ateou fogo a si mesmo naquele lugar, se tornando um espetáculo horrendo que ainda assombra alguns moradores de Salém.

Esses conteúdos narrativos mesclados no cenário criam algo muito poético e trágico ao mesmo tempo. Por mais que atualmente as pessoas interajam de modo rotineiro com a cidade, todos os vestígios de mortes e crimes ainda perpetuam em um plano além da vida que só você consegue perceber.

Os cenários foram bem elaborados. É bom ver o carinho na construção não só da cidade, como também dos ambientes internos. Quartos de um apartamento, o porão de uma casa abandonada, celas da delegacia, corredores de uma clínica psiquiátrica. Tudo é bem rico e crível, mantendo o tom dramático da narrativa.


Uma Alma Presa Por Pendências

Imagem: Square Enix/Divulgação

Logo nos primeiros minutos, o policial Ronan O'Connor entra em confronto com um criminoso conhecido como "Assassino do Sino", que o mata a tiros. Se tornando um fantasma, Ronan recebe uma visão de sua falecida esposa. Ela diz que para que possam ficar juntos, Ronan precisa resolver uma grande questão que deixou pendente em vida. O policial logo conclui que se trata de descobrir a identidade do serial killer que está atormentando a segurança do povo de Salém.

O enredo aborda poucos personagens, o que é ótimo. Todos conseguem se desenvolver o bastante na campanha, que não é longa. Progressivamente o jogador vai entendendo que para solucionar o caso é necessário enxergar muito além do óbvio. O mistério começa a envolver eventos que se desenrolaram centenas de anos atrás, indo de encontro com o sobrenatural que moldou a identidade histórica da cudade.

Não há momentos arrastados, e o desfecho é fantástico! Nenhuma teoria que eu tinha elaborado foi melhor do que o verdadeiro final, e isso é um mérito a ser reconhecido. Há tanta ficção sobre assassinatos, que a margem para inovar nesse aspecto acaba sendo bem pequena. Murdered: Soul Suspect conseguiu me surpreender neste sentido.


Os Ecos de Dois Mundos

Imagem: Square Enix/Divulgação

O som é muito bem trabalhado. A cinemática no início é o melhor exemplo disso. A transição da vida para a morte é conduzida com maestria. A trilha sonora desesperadora, o som de cada disparo da arma, o último suspiro de vida de Ronan e então o abrupto silêncio quando ele definitivamente se torna um espírito.

Muito do conteúdo secundário é contado apenas por meio de áudios, então o jogo também sabe lidar com o silêncio, sem depender de trilha para criar uma atmosfera de suspense. Além disso, a performance desses narradores é ótima também.

Uma coisa que me incomodou um pouco foi que as vezes, enquanto eu estava explorando Salém, a trilha sonora se tornava alarmante, como se eu estivesse em perigo, mesmo quando não havia nenhum demônio por perto.


Um Thriller Policial Interativo


Imagem: Square Enix/Divulgação

Apesar da premissa investigativa, Murdered: Soul Suspect é bem mais intuitivo do que deveria, se aproximando mais de um filme interativo, com raros momentos de desafio, que foram projetados de forma superficial.

No entanto, o mistério existe e se desdobra muito bem, com bom elenco, cenas impactantes e um plot twist que faz toda a jornada por Salém valer a pena.

Nota Final: 8/10

✅ Pontos positivos:

  • Final surpreendente
  • Boas atuações
  • Ambientação obscura
  • Ótima direção

❌ Pontos negativos:

  • Inimigos simples demais
  • Missões secundárias fracas
  • Resolução de cenas de crime fáceis

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