Mês do Halloween: Zé do Caixão

"O que é vida? É o princípio da morte. O que é a morte? O fim da vida. O que é a existência? É a continuidade do sangue. O que é o sangue? A razão da existência". É através desse monólogo inicial que em 1964 as pessoas foram apresentadas à figura cinematográfica que se tornou um clássico no imaginário brasileiro: o coveiro conhecido por Zé do Caixão. Com uma filosofia de vida tão bem definida que investiga a existência e flerta com o niilismo, Zé é uma figura única tanto dentro cinema nacional quanto do internacional. Seu filme de estreia foi uma iniciativa dentro do gênero de terror no Brasil que até então apenas flertava com a possibilidade, mas nunca se assumia realmente como tal, além de servir como influência para o movimento do cinema marginal que deu voz para produções de baixo orçamento e sem conhecimento formal na área. 

Criado pelo cineasta José Mojica Marins em 1963 depois de um pesadelo vivido pelo autor, o coveiro lendário apelidado de Josefel Zanatas (seu segundo nome sendo uma referência a "Satanás") nasceu com uma concepção única: a crença na sua imortalidade através da geração de um filho e na pureza das crianças como representação do progresso e do futuro. Além de toda sua complexidade de existência, Zé do Caixão tinha uma presença marcante devido sua personalidade sádica e grosseira. Sua estética também foi muito característica e inspirada no visual cinematográfico de criaturas clássicas como Drácula (1931) e Nosferatu (1922). Para carregar toda essa energia, Mojica, de última hora, decidiu que seria o intérprete do próprio personagem, por essa razão durante sua carreira a linha entre autor e criação se tornou cada vez mais tênue, criando uma confusão de onde o Zé termina e o Mojica assume.

Infelizmente, no dia 19 de fevereiro de 2020, tivemos que nos despedir de José Mojica Maris, pois aos 83 anos, o cineasta faleceu devido à complicações com seu quadro de broncopneumonia. Pela primeira vez, passaremos um Halloween sem o pai do cinema de terror brasileiro. Foi levando isso em consideração que nós da Revista Jovem Geek estamos dedicando esse especial para falar sobre a história desse artista tão importante para a cinematografia brasileira, incluindo o seu grande legado na figura de Zé do Caixão e recorrendo a algo mais intrínseco a ele: seu amor pelo cinema e seu grande talento como diretor.

Início de Carreira


José Mojica Marins e sua relação com o cinema começou muito cedo em sua vida. Filho do casal Antônio André Marin e Carmen Mojica Imperial, o cineasta nasceu  no bairro Vila Mariana em São Paulo em uma sexta-feira 13 no ano de 1936. Quando seu pai se tornou gerente de um cinema e a família passou a morar nos fundos do estabelecimento, o jovem Mojica começou a passar muito tempo assistindo os mais variados filmes da época, e essa atividade foi se tornando indispensável em seu cotidiano, assim como ler gibis e atuar em peças teatrais na escola. 

Por gostar tanto de cinema, Mojica ganhou de presente em seu décimo segundo aniversário uma câmera V-8, e não parou mais de produzir desde então. De forma artesanal e experimental, o futuro cineasta passou toda sua adolescência produzindo pequenos filmes em sua casa ou pelo seu bairro. Como um incentivador nato, ele chamava seus amigos para ajudar nessas produções tanto nos bastidores quanto entrando como atores amadores nas cenas, além de já começar a introduzir sua visão apaixonada pelo sobrenatural que começou a se tornar a premissa de suas obras. Foi a partir disso que o realizador aos 17 anos criou uma escola de atuação chamada de Companhia Cinematográfica Atlas, voltada para a temática de terror. Cerca de três anos depois, ele conseguiu arrumar uma sinagoga no centro de São Paulo como um local de treinamento e preparação de atuação, além de servir como um set improvisado para realizar seus filmes. 

No começo Mojica tentou usar o dinheiro arrecadado em sua Companhia para financiar seus filmes, mas muito do que foi começado na época não era finalizado completamente. Dois filmes foram lançados pelo cineasta antes que Zé do Caixão ganhasse os holofotes, porém não conseguiram ter êxito com o público. O filme do gênero bang-bang A Sina do Aventureiro (1958) e o drama Meu Destino em Tuas Mãos (1963) não conquistaram o público e acabaram colocando  Mojica em dúvida sobre o que fazer com sua carreira, algo que o impulsionou a dar voz ao seu desejo em dar vida à criatura que o matava em seus pesadelos. 

Meu Destino em Tuas Mãos (1963)
Meu Destino em Tuas Mãos (1963)

A Trajetória de Zé do Caixão

"Porque Zé do Caixão é brasileiro. Zé do Caixão é Zé, não é mister, não é Stanik, não é Steven, não... Zé do Caixão é Zé. É nosso, é caboclo! Isso é importante. Zé do Caixão é uma criação brasileira". Descrito dessa maneira pelo próprio Mojica, a intenção do cineasta era dar vida a uma criatura autêntica que explorasse com propriedade os fatores culturais e cotidianos do Brasil. A figura desse coveiro egocêntrico, sádico e cético tanto para as coisas ligadas ao cristianismo quanto ao paganismo (dava costas para o sincretismo típico do Brasil), que buscava a mulher perfeita para poder gerar seu filho pelo qual viveria eternamente, teve sua primeira aparição em uma tela de cinema no ano de 1964 no longa-metragem intitulado "À Meia-Noite Levarei  Sua Alma" e teve sua jornada concluída em 2008 no filme "Encarnação do Demônio". Foi por meio das suas aparições durante esses 40 anos, seja em tela como personagem, seja pelas alegorias realizadas pelo próprio Mojica em programas de TV, que o personagem além de ficar marcado no imaginário brasileiro, conseguiu ultrapassar as barreiras nacionais e chegar ao exterior com o nome de "Joe Coffin".

Em 1964, Mojica estava totalmente endividado quando lançou o que muitos entendem como sua obra-prima que seria o longa "À Meia-Noite Levarei Sua Alma" e tinha em mente também que se fosse apenas mais um fracasso ele desistiria da carreira como cineasta. Para sua surpresa, seu personagem Zé do Caixão conquistou o público e foi um sucesso de bilheteria nacional na época. Mesmo recorrendo a estética popularmente conhecida como trash devido às limitações orçamentárias de equipamentos, locações e conhecimento formal, o filme de Mojica tinha um cuidado muito grande com a direção e uma precisão muito bem pensada para sua decupagem, o que tirava o estigma de que filmes nesse segmento não seriam bem planejados. Além disso, o cineasta optou por uma estética autêntica que ao mesmo tempo que valoriza o clássico, retomava seu próprio estilo e seus ideias nacionalistas, assim como utilizou também do gore e da violência na construção de planos que tinham a intenção de chocar a audiência. Essas características definiram a linguagem cinematográfica de José Mojica Marins e o consolidou como um artista ao longo dos anos, recebendo elogios de outros nomes grandes do cinema brasileiro como Glauber Rocha.

À Meia-Noite Levarei Sua Alma (1964)

Porém, mesmo sendo validado tanto dentro do Brasil quanto no mercado europeu, Mojica não ficou estabelecido financeiramente de imediato, mas ganhou maior apoio de produtores que lhe concederam maior liberdade criativa para mais histórias como Zé do Caixão. Por esse motivo que em 1967 sob o título de "Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver" que a história do coveiro ganha mais um capítulo. Nesse novo filme, podemos ver mais claramente a separação entre Mojica e seu personagem, pois mais uma vez Zé com sua personalidade tão cética e profana, é punido por suas ações, o que nos leva a entender que o cineasta tinha uma moral que no final condenava aquele momento de liberdade extravasada ao viver o coveiro. O longa também conseguiu bastante sucesso e foi muito marcante principalmente pelas cenas de tortura e a visão não convencional de Mojica ao representar o inferno em um delírio do protagonista. 

Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver (1967)

Após esse último filme no final da década de 60, Mojica passa a manter a fama do personagem mais através dele mesmo do que pelo cinema. É nessa fase que ele começa a aparecer em programas de TV como Zé do Caixão e a fazer performances que beiram ao bizarro para se manter. Por esse motivo que a maioria das pessoas tem a princípio uma imagem mais caricata e cômica do personagem, pois para os quadros que aparecia na TV Bandeirantes ou em alguns episódios de "A Praça é Nossa", era necessário se desviar do grotesco que fazia parte do personagem, o que ajudou para que esse caráter caísse cada vez mais no esquecimento, principalmente para aqueles nascidos dos anos 2000 para frente. Mas, mesmo com essa tendência criada por Mojica, algumas produções cinematográficas que abordavam o coveiro foram realizadas, como: "O Estranho Mundo de Zé do Caixão" (1968), "O Ritual dos Sádicos" (1970), "Finis Hominis" (1970) e "Exorcismo Negro" (1974). Alguns desses filmes foram barrados e sofreram grandes mudanças devido a censura durante a Ditadura Militar, que não admitia o cinema não convencional do cineasta. Isso também contribuiu para que Mojica assinasse algumas direções de filmes eróticos (conhecidos como Pornochanchadas), para conseguir se manter financeiramente.

Durante os anos 2000 passou a maior parte do seu tempo se dedicando à TV, mas em 2008 acabou retornando às telonas do cinema para estrear seu último longa que concluía a história de Zé do Caixão, formando assim uma trilogia com aqueles da década de 60. O novo filme intitulado de "Encarnação do Demônio" retoma os eventos finais de "Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver" e consegue intensificar sua estética gore, porém trazendo o atual e mais velho Mojica vivendo seu personagem mais famoso pela última vez. Acompanhamos a morte de Zé do Caixão, mas também contemplamos seu objetivo final: Ter um filho para poder se manter imortal.

Encarnação do Demônio (2008)

Adeus ao Grande Mestre

José Mojica Marins pode ter morrido, mas sua obra para sempre se manterá como relevante para a história do audiovisual. O terror brasileiro se tornou algo relevante e passou a ser querido e alimentado por outros cineastas devido aos esforços de Mojica, que foi uma pessoa sem instrução formal em cinema, sem formação educacional básica e com dificuldade de se comunicar, mas com sua essência autodidata como artista e sua paixão pela arte cinematográfica que o fez consumir muitos filmes desde novo conseguiu com muita dificuldade triunfar e ser reconhecido como um dos grandes nomes do terror e um dos precursores da estética do gore como subgênero.

Além disso, a criatividade aliada com o talento nato para direção do grande mestre do cinema brasileiro se traduziram de forma totalmente produtiva e encantadora na figura de Zé do Caixão. Seja ele cômico ou sádico, o personagem é um dos grandes expoentes do terror internacional, sendo tão relevante quanto clássicos como Freddy Krueger, Michael Myers, Ghostface, entre outros. Além disso, Zé é uma grande inspiração para a cultura pop sendo homenageado de diversas maneiras ao longo dos anos.

Zé do Caixão homenageado em Carro Alegórico durante o Carnaval de 2018

Nos despedimos de José Mojica com grande devoção por seu trabalho e reconhecendo a genialidade como artista dentro e fora do cinema. No final, ele conseguiu realizar o seu mais profundo desejo despejado como motivação para o Zé do Caixão, se tornou imortal, mas não necessariamente através do sangue dado na procriação, e sim no sangue dado para levantar o cinema marginal e dar voz àqueles fora da linha de investimento, e com essa paixão, se tornar uma das grandes mentes do audiovisual brasileiro. 

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