Resenha - O Matrimônio de Céu & Inferno



"Mas há também esperança no inferno, por mais assustador que ele seja. E luz nos lugares mais sombrios, apesar da maldade e da dor, do sofrimento e da tristeza. Mesmo assim pode haver uma conciliação... um matrimônio... de céu & inferno"

Poucos autores conseguem reter a essência de outro escritor/pintor e adaptá-la para outro formato com originalidade e competência. Para nossa sorte, Enéias Tavares e Fred Rubim realizaram tal feito com 'Matrimônio do Céu e do Inferno', de William Blake: poeta, tipógrafo e pintor inglês. A HQ de 128 páginas e capa dura nos é trazida pela editora Avec.

A HQ Brazuca narra, paralelamente, a história de quatro personagens: Amarante, um assassino de
aluguel que trabalha para o líder religioso Antonino dos Santos; Verônica, uma acompanhante de luxo que sonha em proporcionar uma vida melhor para sua filha; Maestro Antonino dos Santos, líder religioso à frente da "Orquestra divina de Deus", organização que visa apenas ao lucro obtido através da fé de seus fieis e, por fim, Dani, uma traficante de drogas com o sonho de viver de sua arte. Os capítulos da história são alternados entre o enredo dos quatro personagens e trechos retirados de 'Matrimônio entre o Céu e Inferno', narrados pelo próprio Blake, que se mostra um personagem cativante e misterioso.

Enéias Tavares e Fred Rubim em bate-papo sobre a HQ
A narrativa, ambientada na grande São Paulo, acompanha os dilemas que os personagens encaram em suas profissões, sendo, em sua maioria, de caráter moral. Nesse contexto, o Maestro dos Santos acaba provando ser uma exceção à regra, pois sua ideologia de moralidade apresenta-se deturpada e enviesada totalmente pelo lucro, sendo ele o responsável por assassinatos e orgias, apenas para que sua organização mantenha-se nos trilhos. Amarante e Verônica seguem uma linha muito próxima de dilema, com ambos entendendo os riscos e as consequências de suas profissões, mas com princípios que dificultam a execução de seus trabalhos: Amarante se recusa a matar uma criança, tendo ordens diretas para exterminar qualquer um que encontrasse na casa de um ex-maestro, já Verônica não consegue aceitar o assassinato executado por um dos maestros de dos Santos, sendo a vítima uma das garotas que trabalhava para ela. Dani vive o impasse de ter seu melhor amigo de infância definhando num leito hospitalar e ansiando por morrer usando os produtos vendidos por ela.

Toda a obra bebe muito de fontes da cultura Pop. Uma excelente forma de descrevê-la seria o encontro de Blake com Tarantino (Pulp Fiction/Cães de aluguel) e Garth Ennis (Preacher/The boys). Sendo Blake extremamente referenciado na obra, de forma direta e indireta. Ao final da HQ, temos uma lista completa de referências presentes de outras obras que foram influenciadas pela literatura blakeana, além de um making of detalhado sobre o processo de criação dos autores, algo que alegra os fãs de quadrinhos que adoram acompanhar os bastidores da criação.

É realmente admirável a minúcia e cuidado com o qual o roteirista, Enéias Tavares, cria uma narrativa envolvente, partindo dos princípios literárias escritos por um autor há mais de 200 anos. Percebemos o princípio intrínseco no qual Blake tanto questionava sobre a moral e a religião, aplicados de forma magistral ao cotidiano de quatro brasileiros que vivem na pele o que o escritor refletiu no papel.  Tive o prazer de conversar com Enéias e saber mais sobre o envolvimento dele com Blake, não poderia esperar menos de alguém que usou a obra blakeana como tese de doutorado. O roteirista consegue interpor uma prosa rebuscada, mas compreensível, com um vocabulário totalmente coloquial, mas ainda poético - fator evidente dos capítulos intercalados de citações diretas do original, com o traço único e característico de Fred Rubim que adapta incrivelmente bem os desenhos originais e adiciona novas imagens, com as histórias dos personagens já citados.

Trecho que Blake discorre com o texto direto do livro original

Falando de Rubim, não poderia deixar de ressaltar a escolha da paleta de cores. Cada personagem possui, em seus quadros, uma cor predominante que reflete sua personalidade. O mais interessante é que, ao ocorrer o encontro entre personagens, as cores também misturam-se, criando ambientes únicos para cada quatro. A prosa poética dos textos também refina a obra, com inflexões constantes e sátiras sutilmente empregadas que nos fazem querer ler e reler o texto. Com certeza, seria impossível  desassociar o texto da imagem, pois a fusão de ambas resulta em uma verdadeira obra de arte.

Amarante, Verônica, Dani e Maestro dos Santos
É difícil encontrar pontos "negativos" numa HQ que possui uma riqueza enorme em seu repertório. Algo apenas que incomodou, a princípio, foi a necessidade de haver um último capítulo para explicar com detalhes o encerramento dos personagens. Acredito que encerrar no penúltimo capítulo seria perfeito, porém deixaria algumas lacunas que leitores mais exigentes reclamariam, mas em momento algum isso diminui ou reduz o poder de impacto que o conjunto tem e não desmerece em nada o esforço dos autores.

Com toda certeza, Tavares e Rubim realizaram um trabalho com total maestria, orquestrando um verdadeiro instrumento divino e profano, uma leitura obrigatória para os amantes de quadrinhos, literatura e boas histórias.


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